A arte migratória de Gaia Wilmer

A arte migratória de Gaia Wilmer

Um dos momentos marcantes para mim em 2017 foi ter ‘descoberto’ Gaia, em obra e arte. Além de participar do financiamento de “Migrations’, fui conhecendo o seu trabalho, como instrumentista, compositora e arranjadora. Uma obra para lá de instigante, carregada com o melhor da música instrumental brasileira. Porisso convido vocês a passearem por essa entrevista e conheçam essa grande artista.

Wilson Garzon – Como se deu a escolha pelo saxofone? Que mestres e compositores foram decisivos no seu desenvolvimento musical?
Gaia Wilmer – A minha vida musical começou relativamente tarde. Eu já estava me formando em Relações Internacionais, querendo fazer mestrado em Filosofia, estudando algumas correntes dentro da Filosofia que consideram a arte como uma das formas de retomar a sensibilidade e o equilíbrio entre razão e paixão no ser humano. E um dia, com uns 22 anos, escutando o Paul Desmond, senti muita vontade de tocar como ele e achei que eu deveria tentar, ao invés de ficar só estudando todas essas questões em teoria. Logo depois comecei a fazer aula com a Silvia Beraldo, que virou minha segunda mãe e, através delas, conheci duas grandes amigas musicistas que, junto com a Silvia, me fizeram querer mudar de caminho.

WG – A sua ida para Berklee em 2013 colocou a música como prioridade em relação à fotografia em sua vida?
GW – A fotografia nunca foi prioridade… Minha mãe é fotógrafa, eu sempre brinquei, sempre gostei de testar, de prestar atenção, de aprender como funcionava mas sempre foi brincadeira. Depois, quando já tocava, comecei a tirar fotos de amigos músicos, por prazer a amizade, e quando fui morar no Rio fiz alguns cursos no Parque Lage, mas ainda sempre porque gostava e queria aprender mais. Foi só depois que já estava há cerca de dois anos em Boston, quando comecei o mestrado e precisei de uma outra saída pra me ajudar financeiramente, é que pensei em levar minha câmera (que nem estava lá comigo pois é só estudava música 24 horas por dia) e trabalhar tirando fotos de shows. E, hoje em dia, apesar de a música ser uma inquestionável prioridade na minha vida, a fotografia é meu ganha pão e me divido bastante entre as duas coisas (e continuo gostando bastante!).

WG – Como era o ambiente em Berklee, competitivo ou colaborativo? Porque a sua escolha em trabalhar com a formação de octeto?
GW – A Berklee é uma escola que hoje em dia é muito grande e ampla, você encontra de tudo. Tem muitas turmas, muitos estilos, mesmo dentro do grupo de pessoas que vão para estudar jazz. Fui pra estudar saxofone, improvisação, e realmente pode ser muito difícil… Eu ainda tinha muito pouca experiência e quase todo mundo a minha volta tocava desde criança… Liam muito bem, improvisavam desde sempre, conheciam a linguagem do instrumento e do jazz em um nível muitíssimo mais avançado do que eu. No começo eu me sentia bem sozinha e me comparava bastante mas logo fui fazendo amigos e vendo qual era a minha onda e minha turma. Fiz muitos amigos, com interesses de estudos diversos, gente tocando muito bem ou não mas, independente disse, querendo ser amigo. Não sentia a questão da competitividade, a não ser a minha comigo mesma.

Sobre a formação de octeto… Não pensei no número, pensei nos instrumentos, nas possibilidades timbrísticas de cada um e das possíveis combinações entre eles. Queria ter a base e pelo menos alguns sopros pra ter mais possibilidades de escrita… E a escolha de cada instrumento foi uma mistura de gosto pelo timbre do instrumento em si junto com uma admiração e vontade de trabalhar com amigos próximos.

WG – Em 2017, você lançou “Migrations”. O conceito desse seu CD representa a reunião de seu trabalho com o octeto ou houveram composições escritas especialmente para ele?
GW – Esse projeto começou mais ou menos junto com a minha ideia de mudar o meu curso de performance para composição. Comecei a estudar mais arranjo e composição e escrever mais e comecei e gostar bastante e sentir que tinha mais a ver comigo do que estudar saxofone pra ser uma super saxofonista no nível que eu imaginava. Eu amo tocar e estudar saxofone e ainda quero melhorar muito mas achei que encaixava mais com a minha personalidade e eu conseguia me expressar melhor com as minhas próprias músicas do que com solos. Nisso, escrevi After Them, a música que abre o disco, depois de algumas masterclasses que fiz na Berklee com a Maria Schneider, o Vijay IyerGeri Allen e outros compositores maravilhosos. Escrevi essa música pra septeto, a mesma formação do meu octeto mas sem guitarra, e chamei alguns amigos pra gravarem comigo. Depois que gravei fiquei tão feliz (e tão encantada com a Songyi, cantora do grupo), que decidi fazer um grupo com essa formação, e logo adicionei a guitarra. A partir daí, a maioria das músicas do disco foram escritas especialmente para o grupo e, inclusive, pensando nas pessoas que tocam comigo, e é assim que continuo fazendo.

WG – Conte-nos um pouco sobre o processo de criação de cada composição sua presente em “Migrations”.
GW – Cada música tem um ponto de partida e um processo bem distintos:

After Them começa com uma alternância entre a linha principal do baixo e a ideia rítmica do piano que são inspiradas na música do Vijay Iyer. Depois dessa introdução, o desenvolvimento da música é inspirada em contornos e texturas da Maria Schneider, tanto na melodia e no baixo quanto no uso da voz, inspirada no projeto na qual ela tinha a Luciana Souza cantando com a sua big band.
Criançada já tem um processo inicialmente bem matemático, brincando com estruturas constantes e que se desenvolveu numa melodia mais alegre que brinca com a relação entre o 3/4, o 6/8 e o 6/4 e diferentes formas de sentir essas formas de compasso.
Migrations foi escrita depois do primeiro show que assisti de um compositor que gosto muito, Guillermo Klein. Escrevi inspirada na sua música e pensando especialmente na voz da Songyi e no meu grande amigo, Raphael Lehnen, tocando bombo legüero.
Helen foi originalmente escrita para um quarteto e eu quase não a inclui no disco achando que não era uma boa música para o octeto por ser tão curta e simples, mas pelo visto eu estava enganada, muita gente gosta dela! A música vem de uma ideia de exploração de modos vindos de outras escalas que não é escala maior. O ostinato, os acordes e a melodia são todos baseados na escala mixolidia b6, modo proveniente da escala menor melódica.
Chá é uma balada dedicada ao amor e à amizade e explora a improvisação livre entre amigos. Começa com um duo livre entre mim e o Gustavo que se desenvolve até a melodia principal, simples e lírica mas que, ao mesmo tempo, tem uma harmonia complexa e não muito óbvia e muitas contrapontos que conversam entre si.
No Talking vem da atmosfera geométrica e a ideia de estrutura constante de Giant Steps. Na primeira parte o motivo principal é transposto e desenvolvido em diferentes tonalidades separadas por uma terça menor. Na segunda parte, uma ideia contrastante é também transposta e desenvolvida mas dessa vez em terças maiores.
Nostalgias é uma balada melancólica que escrevi baseada nos intervalos de uma segunda e uma sexta e, apesar de ser lenta e a estrutura ser um pouco obscura, tem uma forma bem organizada dividida em 4 partes onde o C é uma leve variação do A e o D é uma leve variação do B.
E Acuri, essa maravilha, é a nossa homenagem ao campeão (Hermeto)!

WG – Como você está divulgando o CD? Haverá apresentações no Brasil?
GW –Eu lancei o disco com um selo de jazz aqui de NY, o Red Piano Records, e trabalhei com o assessor de imprensa que trabalha para o selo. Mandamos discos pra vários lugares dos Estados Unidos, Canadá e Europa e com isso já recebi algumas críticas bacanas nos Estados Unidos e no Canadá e o disco tem tocado em várias rádios europeias. Além disso, fiz um show de lançamento em NY que foi muito bacana e estou vendo de lançar o disco no Brasil com a Biscoito Fino e fazer shows de lançamento no Rio e em São Paulo, provavelmente no meio do ano.

WG – Você está desenvolvendo dois projetos envolvendo ‘monstros’ da música instrumental brasileira: Moacir Santos e Egberto Gismonti. Que leitura você está apresentando sobre as obras desses músicos? Eles serão lançados no formato de CD? Quando?
GW –Realmente são duas grandes referências pra mim, sou apaixonada pela obra deles e eles me influenciam muito. O projeto do Moacir Santos surgiu quando eu já estava aqui em Boston e eu e um amigo, também brasileiro, pensamos em montar um grupo para tocar as Coisas e algumas outras peças dele com formação parecida. Eu sempre tive muita vontade de tocar esses arranjos e estando por aqui a vontade ficou maior ainda… Um orgulho grande misturado com uma vontade de fazer mais pessoas conhecerem esse cara maravilhoso. Foi aí que comecei a dirigir um combo grande assim mas, até aí, não estava re-arranjando nada, estava querendo tocar o que o Moacir tinha escrito. Já com o Egberto foi bem diferente… Fiz um arranjo de Sete Anéis para big band tentando brincar um pouco com alguns elementos da música, como a forma e o ritmo e, em seguida fui pro Brasil e resolvi gravar com os amigos do Rio. Gravamos, foi super bacana e, a princípio, era só isso, sem mais pretensões, mas o edital do CCBB estava abrindo e o Egberto estava pra fazer 70 anos (fez em dezembro agora, de 2017)…

Acabei escrevendo um projeto para shows em homenagem a ele com formação de big band, com arranjos todos meus e participação dele – e o projeto foi aprovado! Agora estou correndo contra o tempo pra escrever todos esses arranjos e organizar todo o projeto, que vai rolar no meio do ano, entre julho e agosto, em Brasília, BH, Rio e São Paulo, com uma banda linda, cheia de amigos e músicos da pesada e várias participações bacanas demais. Nesse caso, cada arranjo eu abordo essa questão da leitura de um jeito diferente… A obra do Egberto é muito forte, com uma estrutura difícil de mexer em muitos casos então cada música que escolho penso de maneira diferente, algumas tento brincar mais e tomar mais liberdades, outras tenho muita vontade de manter a estrutura e a cara quase intactas e apenas expandir para o formato de big band… Vou testando uma por uma – e ainda faltam várias! E, sobre ser gravado… A princípio o projeto é esse, apenas shows, mas se depois eu estiver feliz com o resultado do meu trabalho e rolar de gravar, seria muito bacana!

WG – Como você se define agora e para os próximos anos, dentro do cenário jazz e/ou da música instrumental?
GW –Eu estou acabando meu mestrado no NEC – New England Conservatory, onde gostei muito de estudar. Tenho vontade de fazer um doutorado em seguida, no próprio NEC, ou em outros lugares que tenho interesse por aqui, entre Boston e NY. Sinto muito falta do Brasil, dos amigos, da família, das ruas, das frutas, das praias, mas por enquanto tenho vontade de ficar por aqui mais um tempo. Não tenho as coisas muito decididas por muito tempo mas sei que agora é isso que quero fazer. Tenho vontade de estudar mais e de ter uma formação que me permita dar aula numa instituição bacana, que eu tenha prazer de estar. E, junto disso, continuar escrevendo e tocando com o octeto, que adoro, estudando e tocando música brasileira, escrevendo pra big band e fazendo os projetos que forem pintando.

 

gaiawilmer.com