A segunda “União” entre Eduardo Machado e Robertinho Silva

A segunda “União” entre Eduardo Machado e Robertinho Silva

Wilson Garzon – Quatro anos depois de gravarem o primeiro cd “União“, você e Robertinho gravam o segundo trabalho. Quais são em termos musicais as diferenças de um para o outro?
Eduardo Machado – Para mim é uma grande honra poder realizar esses trabalhos com o Robertinho Silva. Como o 1º CD teve um foco maior no baixo e percussão, nesse 2º trabalho resolvemos convidar alguns amigos para ficar diferente. Então tivemos as participações ilustres de Alegre Corrêa, Chico Oliveira, Diego Figueiredo, Gabriel Grossi, Gil Reis, Ivinho Loppes, Nay Carvalho, Sizão Machado e Victor Biglione.
União-mont
WG – Como foi o processo de gravação: primeiro você, Robertinho e Gil e depois os convidados, de acordo com cada música?

EM – Como teve muita gente envolvida fica praticamente impossível reunir todos para gravar juntos ao vivo. Então o CD foi gravado por etapas. 1° etapa foram 3 dias de gravações (de 15 às 17 de outubro de 2015) aqui em Franca SP (onde eu moro) com Robertinho na bateria e percussão, Gil Reis no teclado e eu nos baixos.

Depois dessa base toda pronta comecei a gravar com os convidados; a maioria foi gravado aqui em Franca como Sizão Machado, Gabriel Grossi, Diego Figueiredo, Nay Carvalho e Ivinho Loppes. Chico Oliveira gravou a parte dele e no seu estúdio em São José dos Campos, Alegre Corrêa gravou em seu estúdio em Floripa e o Victor Biglione gravou no Rio. Daí eles me enviaram os arquivos e juntei tudo aqui no estúdio.

Na fase de pré-produção, que é a fase em que fui escolhendo o repertório, já fui imaginando quem daria certo em cada música de acordo com a personalidade musical de cada convidado e também oque a música pedia. Por exemplo, quando compus a música “Lua Laranja” achei que nessa ficaria bom um solo de flugelhorn, então já pensei no Chico Oliveira na hora.

Na faixa “Mano Zé” achei que daria muito certo uma voz feminina então convidei a Nay Carvalho, porque já conheço a textura da sua voz e sabia que ela encaixaria perfeitamente com o arranjo que fiz. Então esse tipo de produção exige uma sensibilidade muito grande pra sentir oque a música pede. Uma coisa importante que tenho feito é de colocar uma faixa interativa em meus CDs.

No CD além dos áudios tem video do making off da gravação, com depoimentos, fotos. Coloquei também partituras e playbacks, procurando dessa forma aproximar o público que queira aprender as músicas e tocar junto com a gente.

WG – Das oito músicas que compõem o repertório de União 2 quatro são de sua autoria. Conte um pouco sobre o conceito de cada uma delas:
EM – Pra vocês – Essa eu fiz especialmente para o Robertinho. Como ele tocou muitos anos com Milton Nascimento e também por ter participado desse movimento do “Clube da Esquina“, a música mineira dentro de todas suas características, tem uma que é bem forte que o conhecido “6/8 mineiro“, então compus essa pra tocar como Robertinho, Ela tem um groove de baixo bem marcante e forte onde utilizo o “Slap“. Senti que nessa composição ficaria muito legal com o Victor Biglione, e ele gravou uma guitarra bem “nervosa” que deu a “liga”.

Choro Carnavalesco – Foi o primeiro choro que fiz.. Compus essa música durante o carnaval de 2015. É uma época que não saio de casa, aproveito pra estudar e compor. Como o nome já diz é um “choro” então já pensei no Diego Figueiredo e no Gabriel Grossi que são exímios “chorões”…sabem tudo de choro.

Lua laranja – É uma bossa bem “preguiçosa” que fiz quando teve aquela “lua vermelha”, mas lá em casa estava laranja rsrsrs… Tem uma melodia bem tranquila e suave que gravei com o baixo fretless (sem trastes). Tem lindos solos (piano e flugelhorn).

Cecília – Essa fiz para minha filha. Foi a primeira música de todos os meus discos que gravei solo, depois Robertinho foi acrescentando uns efeitos sonoros, cantos de pássaros utilizando assovios, etc…. E pra completar coloquei a pequena Cecília conversando um pouco…ela tinha 2 anos quando isso foi gravado. É uma composição que me emociona muito.

WG – Três foram compostas por Ricardo Matsuda, Ivinho Loppes e Alegre Correa: fale um pouco sobre eles e porque escolheu essas composições.
EM – São músicas que gosto muito e achei que daria muito certo nesse CD:
A música Mano Zé (Ricardo Matsuda) imaginei fazer numa onda mais africana, tem uma introdução de Kalimba, e a linha do baixo é bem afro e também tem um solo lindo e emocionante de teclado que o Gil Reis fez.

De Ivinho Loppes que é meu irmão de som gravamos a música Na Contramão. Ivinho é um grande compositor, sua formação musical se iniciou em Pirapora na beira do Rio São Francisco. Participei de todos seus discos e quando conheci essa música já falei pra ele na hora que gravaria essa música. É a primeira música cantada com letra em meus CDs. Também resolvi coloca la porque com uma música cantada eu poderia atingir um público maior. Nessa faixa além da percussão do Robertinho, a voz de Ivinho, o violão elegante de Diego Figueiredo, tem o baixo de condução do meu mestre Sizão Machado! Que honra ter Sizão nesse CD. Ele é o “cara”. Nessa gravei apenas os solos de baixo.

Agora oque falar de Alegre Corrêa… é um dos maiores compositores do nosso país! Hoje tenho a felicidade integrar seu Grupo. Já gravei diversas de suas composições (Estilo Consagrado, Pescador, Choro Bagual). Nesse CD gravei “Encontro das Águas” que é um “chamame” (estilo muito conhecido no Rio Grande do Sul). Decidi incluir essa música no repertório para mudar um pouco esse negócio de pensar que música brasileira é só samba, choro, baião e maracatu… Temos uma diversidade cultural muito grande em nosso país, e quase não vejo ninguém esse tipo de estilo. Então procuro abordar essa diversidade toda em meus álbuns. Essa faixa é dedicada ao meu pai Elsio Malta Baboza.

WG – 3 views of a secret‘ é um tributo que vocês prestam ao mestre Jaco Pastorius? E porque essa música foi escolhida?
EM – Pastorius mudou a história do baixo elétrico. Sua influência fica evidente no meu jeito de tocar e no meu trabalho. Por mais que queira evitar uma hora ou outra isso acontece. Resolvi colocar essa música fazendo um arranjo antigo que fiz. É uma valsa originalmente (3/4), mas eu toco ela em samba (2/4). Já vi inúmeras versões dela mas essa minha versão é única. Para isso contei a participação super especial do Gabriel Grossi. Por coincidência além de ser uma muito tocado pelo baixistas, ela também faz parte do repertório dos harmonicistas por causa do Toots Thielemans. Ele a gravou originalmente no disco do Jaco, “Word of Mouth” (1981).

WG – Como está sendo a divulgação desse cd? Vocês estão pensando em um União 3? Outro projeto?
EM – O CD está sendo distribuído pela Tratore e pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo. Mas está também no Spotify, Deezer, iTnues, Google Play.
Confesso que já estou pensando no União 3. É tão prazeroso fazer a produção de um CD, trabalhar em estúdio com esses músicos fantásticos é um experiência maravilhosa e viciante. Me envolvo tanto em cada trabalho que quando ele fica pronto fica um vazio rsrsrsrs.

WG – E a cena instrumental em Franca? E as suas andanças pelo Brasil? Volta para a Europa?
EM – A cena instrumental no Brasil é bem complicada, o público é bem restrito mas isso não pode nos desanimar. Aqui em Franca temos um projeto (Quinta Jazz) há 8 anos, que é onde fomentamos o público em nossa cidade. Dificuldades sempre existem, em qualquer nicho mas nós músicos temos que nos organizar e fazer as coisas acontecerem. Se não fizermos isso ninguém vai fazer por nós.

Tenho viajado bastante pelo Brasil, tenho tocado em SESC’s, alguns festivais bem legais como Goyaz Festival em Goiânia, Circuito Vijazz & Blues em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Uberaba, Viçosa, Poa Jazz Fest em Porto Alegre. Recentemente fiz um turnê com meu Trio pela Europa onde passamos pela França, Suíça, Alemanha e Holanda.

 

eduardo-machado.com

 

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