A vibe criativa e pulsante de Igor Willcox

A vibe criativa e pulsante de Igor Willcox

A cada década, uma nova safra de músicos assume o seu protagonismo, revelando talentos que levarão adiante a nossa forma de improvisar e compor, alargando as fronteiras da  cena criativa brasileira. Nascido dentro de uma família envolvida com a música, Igor Willcox, depois de um tempo à deriva, mergulhou de ponta a cabeça na bateria. Hoje, ao apresentar #1 seu trabalho autoral em formato de quarteto, ele assume o seu espaço como uma das maiores revelações dessa nova safra de talentos.

Wilson Garzon – Você que nasceu dentro de uma família de músicos, como foi sua jornada até a escolha da bateria como seu instrumento?

Igor Willcox –  Acho que escolhi desde cedo, apesar de ter estudado um pouco de piano quando criança, mas minha mãe me falou que eu sempre ficava batucando em todos os lugares, desde pequeno rs…
Minha mãe é uma grande cantora e apesar de meu pai, Paulo Cesar Willcox (maestro, pianista, vibrafonista e arranjador), ter falecido quando eu ainda era um bebê, cresci ouvindo suas obras. Quando eu tinha 14 anos, minha mãe era sócia de um bar de Mpb em Santos e vendo muitos músicos tocarem, acabei me interessando pela bateria — em especial vendo os meus dois tios, que não eram de sangue, mas de criação, grandes bateras Marton (in memoriam) e Paulinho Freitas (in memoriam).

Quando era intervalo entre uma entrada e outra, eu ia la na batera, ficava fuçando, tentando tocar alguma coisa rs… não saía nada. Um dia o Paulinho chegou para mim e falou: — Moleque, você quer aprender a tocar bateria? Então vai em casa que vou te dar umas aulas. Eu fui, é claro! Logo de cara ele já me apresentou a vídeo do Tributo a Buddy Rich, com Steve Gadd, Vinnie Colaiuta e Dave Weckl, aquilo foi algo impressionante! Muito além do que eu podia compreender no momento, mas foi ali que me encantei totalmente pela batera e pensei: É isso que eu quero para mim!

WG – E em relação ao jazz, quando foi que ele virou uma opção para você? E que mestres você destacaria em sua trajetória?Igor Willcox-mont

IW –  Eu, desde pequeno, tive a oportunidade de escutar os discos que o meu pai deixou, já gostava muito de Jazz desde essa época. Dentre os discos havia: Bill Evans, Miles Davis, Weather Report, Herbie Hancock Thelonius Monk, Modern Jazz Quartet, John Coltrane e etc…
É difícil citar todas as minhas maiores influências, pois são muitas, mas vou citar alguns bateristas, como: Tony Williams, Elvin Jones, Peter Erskine, Jack de Johnette, Joe LaBarbera, Jimmy Cobb, Gary Novak, Gary Husband, Steve Gadd, Dave Weckl, Vinnie Colaiuta, Lenny White Jeff Ballard, etc…
E de outros instrumentistas e grupos como, Herbie Hancock, Miles Davis, Weather Report, Chick Corea, Bill Evans, John McLaughlin, Allan Holdsworth, Wayne Shorter, Return To Forever, Yellow Jackets, entre muitos, mas muitos outros… rs

WG – Você lançou o cd “New Samba Jazz” em um selo suíço. Quem participou desse projeto? Repertório? A repercussão foi boa?

IW –  O disco foi gravado e lançado no ano de 2006 pela gravadora suíça Altrisuoni. Foi um projeto idealizado por mim, pelo pianista Erik Escobar e pelo meu irmão, o contrabaixista Chico Willcox. O repertório são releituras de standards do Jazz e da música brasileira, como Casa Forte (Edu Lobo), Prince of Darkness (Wayne Shorter), tocadas de uma maneira diferente, um som bem para frente, moderno, com muita liberdade de criação e interação entre o trio. O disco teve excelentes críticas nos Estados Unidos, Brasil e Europa, ficamos por alguns anos no top#1 dos mais vendidos do label.

WG – Conte-nos um pouco sobre o Igor Willcox Quarteto. Quando é que pensou em gravar o projeto #1? Existia um conceito para esse trabalho?

IW – Eu sempre tive vontade de gravar o meu trabalho solo, com composições minhas, mas nunca colocava em pratica por achar que não era o momento. De uns 2 anos para cá, comecei a estudar piano, para me ajudar no processo de composição. Eu sempre tinha muitas ideias, mas era complicado colocá-las no papel. Durante os estudos de piano, comecei a compor, o que foi me encorajando cada vez mais em fazer um disco autoral. Fui compondo, testando, pré-produzindo as músicas e quando eu percebi já tinha composições para gravar um disco inteiro! rs…

O quarteto surgiu logo depois da ideia de gravar o disco, pois logo imaginei em montar um show em cima dessas composições. A princípio chamava-se Igor Willcox & Friends e cada apresentação tinha convidados diferentes, mas senti a necessidade de ter um grupo com músicos fixos, para que pudéssemos ensaiar o som, ter um entrosamento melhor e uma dinâmica de grupo. Chamei o Clayton Sousa (sax), que gravou 6 músicas do disco, Vini Morales (piano, synths) que gravou 5 músicas do disco e o Glecio Nascimento (baixo), que gravou 3 músicas do disco. A partir daí mudei o nome para Igor Willcox Quartet.

WG – Das nove músicas que compõem o repertório de #1, seis são de sua autoria: Brotherhood, The Scare, Julie ‘s Blues, Room 73, Waltz for my love e Lifetime. Gostaria que você descrevesse cada uma delas.

Brotherhood 
Primeira faixa do disco e minha primeira composição, que traduzido significa “Irmandade”.  Essa música fiz em homenagem a todos os meus irmãos de som, que tocaram e tocam comigo desde o começo da minha jornada. O gênero dessa composição é uma linha mais voltada para o Funk Jazz. O groove de baixo e bateria dessa música é algo bem marcante, foi a primeira ideia que me surgiu quando comecei a compô-la, em seguida a parte harmônica e pôr fim a melodia. Nessa faixa contei com a participação dos grandes músicos e amigos Erik Escobar (teclado), Clayton Sousa (sax) e Jj Franco (baixo). Brotherhood é sem dúvida umas das preferidas pelo público.

The Scare
É a segunda faixa do disco e também minha segunda composição rs. Sempre que escuto essa música vem em minha mente o meu pai e as vezes penso que recebi uma mensagem dele em forma de música. Quando compus, não pensei em fazer uma homenagem a ele, mas depois que a música ficou pronta e gravei, sempre que eu a ouço me vem a “ lembrança” dele, apesar do meu pai ter falecido quando eu ainda era muito pequeno, apenas 9 meses. É uma composição bem misteriosa, mas que acho muito bonita! Nessa faixa contei com a participação dos grandes músicos e amigos, Vini Morales (teclado), Rubem Farias (baixo) e Clayton Sousa (sax).

Julie ‘s  blues 
Essa composição eu fiz em homenagem a minha cachorrinha, Julie, que está sempre ao meu lado quando estou no estúdio trabalhando. Muitas vezes quando estou levando ela para passear, surgem melodias, ideias harmônicas, um riff e etc.… e eu prontamente pego o meu smartphone e gravo cantando essa ideia. Julie ‘s Blues surgiu assim rs. Quando eu resolvi gravar o disco, pensei que gostaria de ter a participação de muitas pessoas importantes que fazem parte da minha trajetória como músico, e uma delas é o trombonista/arranjador Bocato.

O Bocato é uma pessoa e um músico maravilhoso, um dos grandes gênios da música brasileira, que me abriu muitas portas e que tenho a oportunidade de tocar desde o ano 2000. Quando compus a Julie ‘s Blues, logo de cara pensei que ficaria demais com a participação dele, que prontamente aceitou o convite e fez um arranjo de metais, gravando um naipe de trombones, a melodia e um lindo solo. Além do Bocato, participaram brilhantemente os músicos Vini Morales (hammond), Glecio Nascimento (baixo acústico) e Clayton Sousa (sax).

Room 73
Na semana que eu criei essa música, eu estava ouvindo muito Return To Forever, John McLaughlin, Mahavishnu Orchestra, o auge do Fusion. Gosto muito dessa sonoridade que eles criaram nos anos 70… O som tinha muita energia, todos tocavam com muita pressão, entusiasmo e havia uma sinergia absurda! O nome é em homenagem ao meu estúdio que se chama Room 73, onde eu passo a maior parte do meu tempo. Nessa faixa tive a participação dos grandes músicos Vini Morales (teclados e synth), Fernando Rosa (baixo) e Clayton Sousa (sax).

 


Waltz For My Love
 

Para mim a música mais bonita do disco. Fiz em homenagem à minha esposa Audrey Willcox, que sem dúvida nenhuma é a pessoa mais importante na minha vida e que está sempre ao meu lado, me dando todo o suporte e me impulsionando para fazer a minha música. Quando fiz essa música, pensei numa flauta transversal para fazer a melodia. Convidei o Clayton, que além de ser um excelente saxofonista, também toca flauta lindamente. Contei também com as belas participações do pianista Bruno Alves e do baixista Rubem Farias.

Lifetime
Fiz em homenagem ao meu maior ídolo da bateria, Tony Williams. Me inspirei na época em que ele estava fazendo a transição do Bebop, Hard Bop para o Jazz Rock, fazendo as misturas, o Fusion, com seu projeto Lifetime, onde passaram diversos músicos como John McLaughlin, Allan Holdsworth, Alan Pascqua, etc.… Para esse tema, achei legal colocar uma guitarra para dar essa sonoridade e chamei meu querido amigo e grande guitarrista Carlos Tomati, que junto com o baixista Glacio Nascimento e o pianista Vini Morales deram a energia e toda musicalidade para essa composição.

Junto com esse Cd, também lancei o play along, com as faixas Brotherhood, Julie ‘s Blues, Lifetime e Room73. O play along acompanha as músicas (sem a bateria) e partituras para o baterista poder tocar junto.


WG –
Quanto à divulgação, o que você já fez e o que pretende apresentar dentro dos próximos meses? A repercussão tem sido boa?

IW – Agora para os próximos meses estou focado na tour do álbum com o meu quarteto. A tour já está acontecendo e nos apresentamos em diversos clubs e festivais, como o Jazz nos Fundos, Play Jazz Festival, Jazz no Hostel, Santos Jazz Festival, entre outros… A repercussão está sendo maravilhosa, o disco já está sendo executado nas rádios de vários países, como Estados Unidos, Canada, República Tcheca, Eslováquia, África do Sul. Estou muito orgulhoso com o resultado desse trabalho e me sentindo extremamente realizado, pois apesar de eu já ter gravado com outros projetos e artistas, esse foi o meu primeiro disco solo e com composições autorais.

WG – Como avalia a atual cena da música instrumental em São Paulo? Que projetos estão engatilhados para os próximos anos?

IW – Olha, apesar de situação crítica em que o pais vive, acho a cena de São Paulo muito boa, com muitos eventos de Jazz, tanto em clubes como festivais. Claro que poderia ser bem melhor, mas vejo muitos músicos, donos de clubs, escolas de música e etc… empenhados em fazer a cena andar, sem depender de qualquer tipo de mídia. Para o futuro próximo, estou trabalhando para realizar um tour internacional deste trabalho, gravar um segundo álbum com novas composições e gravar também um DVD do quarteto.

Wilson, gostaria muito de agradecer a você por essa entrevista e pelo espaço aberto para a divulgação do meu Cd. Parabéns pelo trabalho realizado e desejo muito sucesso sempre!!!

 

SITE para Venda:
https://www.igorwillcox.com/