Hercules Gomes ou a nova força do piano brasileiro

Hercules Gomes ou a nova força do piano brasileiro

Nos últimos anos, surgiu um grande talento dentro da linhagem do piano instrumental brasileiro: Hercules Gomes, sem dúvida, é descendente direto da espinha dorsal que nasce em Ernesto Nazareth e passa por Radamés Gnattali e Laércio de Freitas. Nessa entrevista, Hercules conta a sua trajetória musical e nos disseca a sua arte de criação presente em “Pianismo”, cd que foi lançado recentemente.


Hercules Gomes, só, com Rodrigo y Castro e com Victor Angeleas & Junior Ferreira.
Hercules Gomes, só, com Rodrigo y Castro e com Victor Angeleas & Junior Ferreira.

Wilson Garzon – A sua trajetória de vida confunde-se com a de tornar-se pianista. Quando você percebeu que esse caminho não tinha volta? A partir de que momento você se sentiu que estava pronto pra mostrar a sua arte?
Hércules Gomes – Na verdade fui me tornando músico profissional sem perceber, não foi uma coisa planejada. Aos 16 anos comecei a tocar em bandas, mas ainda sem grandes pretenções. Com 19 me lembro que já sabia o que queria e já estava prestando vestibular de música. Eu comecei tocando teclado, o piano mesmo considero que só fui estudar depois dos 20 anos de idade.

WG – ‘Pianismo’, trabalho solo lançado em 2013, foi um ‘resumo da ópera’ ou já tinha um conceito pré-estabelecido?
HG- As duas coisas. Eu acredito que até hoje passei por 3 fases importantes. A primeira foi antes de entrar na faculdade onde pude desenvolver a percepção como autodidata tocando em bandas e ter os primeiras noções de teoria musical. A segunda foi já na faculdade onde conheci o professor Silvio Baroni que na verdade era professor de piano clássico. Nessa época eu tranquei o curso de música popular só para desenvolver o trabalho de piano com ele. Foram uns 3 anos de estudo intenso que definiram praticamente tudo relativo à técnica e sonoridade que que tenho hoje. E a terceira fase foi anos depois quando comecei a unir as duas coisas. Foi só ai que comecei a moldar de forma mais definida a música que faço hoje.

WG – No repertório, seis são composições autorais (Allegro em 3, Helena, Toada, Apucarana, Nação primeira e Platônica). Conte-nos um pouco sobre o processo de criação e o significado de cada uma delas.
HG- Sobre o meu processo de composição, é tudo muito intuitivo. Eu costumo sentar no piano e improvisar. Guardo as melhores idéias e assim aos poucos as músicas vão nascendo.
Allegro em 3
é uma música mais antiga, umas minhas primeiras composições. Eu já havia gravado ela com o Pano pra Manga, quarteto instrumental que eu participei de 2000 a 2008. Sempre gostei muito dela e por isso decidi adaptar para piano solo e gravar.
Helena
é uma música que fiz para a minha filha quando ela tinha 2 anos.
Toada
foi uma música que compus exclusivamente para gravar nesse disco. Uma espécie de jongo e também um estudo para mão esquerda.
Nação Primeira
compus em uma época que eu estava ouvindo muito os grupos de maracatu como Nação Estrela Brilhante do Recife e Nação Leão Coroado. É uma peça totalmente escrita, não tem improviso. E é inteiramente baseada em células rítmicas de maracatu. É a primeira de uma série de músicas com esse conceito, daí vem o nome.
Apucarana
é o nome de uma rua em São Paulo que para mim é especial. Curiosamente, depois de gravar essa música descobri que alguns amigos meus são de uma cidade no Paraná que também se chama Apucarana.
Platônica
também é uma música mais antiga, compus por volta de 2008 para uma moça que conheci nessa época e pirei, platonicamente.

WG – Em relação às outras seis, como e porque foram escolhidas? Elas foram arranjadas e/ou adaptadas dentro da sua proposta musical para o cd?
HG- Escolhi apenas músicas que adoro tocar e também compositores que são meus ídolos brasileiros. Todas foram arranjadas para piano solo com esse conceito de exploração dos recursos do instrumento.
No caso da Odeon por exemplo, apesar de ser uma música escrita para piano, prefiro não tocá-la como Ernesto Nazareth escreveu, mas sim tocá-la acrescentando as inúmeras influências que tenho de pianistas que que viveram nesses 150 anos depois dele;
A Duda no Frevo também é especial, eu queria gravar um frevo tocando piano solo porque é um estilo fantástico e brasileiríssimo, porém pouco tocado no piano. A escolha de todas as outras foi feita com esse mesmo espírito que acabei de explicar e todas tem uma coisa em comum: são brasileiras! Eu amo a música brasileira e a cada dia descubro mais e mais coisas, o que me deixa ainda mais apaixonado!

WG – Como foram as experiências de participar dos grupos Amanajé e “Pano pra Manga”? Você pretende continuar nesse tipo de projeto?
HG- Foram experiências muito importantes. Foram épocas em que experimentamos muito e aprendemos muito sobre música instrumental. Com o Pano pra Mangagravamos um disco em 2007 e com o Amanajé foram 3: “Amanajé”, “Suite Urbana” e “Puerto Quijarro”. Sim, pretendo continuar e gostaria de fazer mais esse tipo de projeto com outros grupos e artistas. Embora às vezes seja difícil devido à falta de tempo.

WG – Você participou da gravação dos Concertos Cariocas de Radamés Gnatalli. Você pertence à essa árvore genealógica que passa por Nazareth e Gnatalli?
HG- Se pertenço não posso dizer, mas posso dizer que essa é uma linhagem das mais brasileiras e mais preciosas com relação ao piano brasileiro! É a vertente que hoje chamamos carinhosamente de pianeiros brasileiros, pianistas que atuaram da segunda metade do século XIX até a primeira metade do século XX. Infelizmente muitos desses pianistas estão caindo no esquecimento como Tia Amélica, Carolina Cardoso de Menezes e Maestro Gaó. Foram pianistas muito importantes que levaram para frente um estilo de se tocar piano que foi fundamental para a formação da identidade cultural brasileira.

Os discos que gravaram não foram relançados e as partituras também são raras e por isso são pouco tocados. Eu costumo dizer que a história que não é contada é esquecida, mas recentemente um amigo fez de sua tese de doutorado um livro contando sobre os pianeiros brasileiros! Considero uma joia para a história do Brasil. O livro se chamaComo é Bom poder Tocar um Instrumento, do Robervaldo Linhares Rosa.

Sobre a gravação do Concerto, foi a realização de um grande sonho! Radamés pra mim é até os dias de hoje o que há de mais evoluído em concepção de música brasileira. O CD será lançado nesse ano de 2016.

WG – Como está sendo a divulgação de seus discos e pretende participar de festivais?
HG- A divulgação hoje é praticamente toda pela internet especialmente pelo meu site, youtube, facebook… isso é bom pois democratiza as coisas. A música que faço é completamente independente e fico muito feliz a cada vez que ganho seguidores. Felizmente tenho sido convidados para vários festivais no brasil e aos poucos também no exterior. É muito gratificante quando vemos que as pessoas gostam e valorizam a música que fazemos.

WG – Quanto aos seus trabalhos futuros, que novidades poderemos esperar?
HG- Pretendo lanças 3 vídeo clipes esse ano, coisa pouco comum na música instrumental. Pretendo também dar continuidade ao trabalho com meu Trio e também ao meu duo com o flautista Rodrigo Y Castro. Até o fim do ano quero gravar um disco inteiramente dedicado a Ernesto Nazareth, dando continuidade às minhas Transcrições Nazarethianas que nada mais são que arranjos meus para músicas dele com toda carga de influências dos pianeiros que vão de Nazareth a Laércio de Freitas.

INTERNET

Hercules Gomes

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Hercules Gomes

LINK DE VIDEO

Recital Museu da Casa Brasileira

Videos CD Pianismo

Gravação do Concerto Carioca nº 2 de Radamés Gnattali (trechos)

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