Insight: a arte de Eduardo Guedes

Insight: a arte de Eduardo Guedes

 

Gustavo Cunha, 18/04/20117 publicado no https://gustavoccunha.blogspot.com.br/

Insight é o título do disco de estreia do guitarrista Eduardo Guedes, cujo trabalho ele afirma não se adequar em um rótulo, trazendo a proposta de uma atmosfera de jazz contemporâneo com liberdade rítmica e improvisação interativa, sem premeditações de argumentos. A escolha foi fazer música, apresentar novas composições e ter total liberdade para executá-las.

O disco traz a formação de trio e Eduardo Guedes tem ao seu lado o contrabaixista Bruno Repsold e o baterista Paulo Diniz, uma geração muito promissora para a nossa música instrumental e o jazz.
Para Eduardo, o baterista Paulo Diniz é um músico muito atento às sugestões rítmicas e que cria a todo momento uma atmosfera convidativa para a improvisação jazzística; já ao contrabaixista Bruno Repsold, o considera um virtuoso e criativo, é o suporte harmônico coeso e ritmicamente forte que faz um contraponto perfeito para todas as propostas de ideias melódicas.
Com 9 composições autorais e uma interpretação de Wayne Shorter – “Fall” (original do disco Nerfetiti do Miles), o repertório envolve o ouvinte com uma grande riqueza melódica e mostra um guitarrista de fraseado preciso e contagiante. Em destaque os temas “Capim Navalha” e “Queijo Duro”; a balada “Esperança”, com uma bela introdução pelo contrabaixo de Bruno, e os temas “Valente”, “Lunar” e “Jamais vi” em que também se destaca a bateria de Diniz; e o bom blues em “Blues Messengers”.


ENTREVISTAEduardo Guedes-mont

Gustavo Cunha – Conte-nos um pouco sobre sua formação musical.
Eduardo Guedes – Toco guitarra desde os 12 anos de idade. Comecei tendo aulas com um amigo, Rogério da Silva, irmão mais velho de um grande amigo da escola. Ele também ainda não era um músico muito experiente, mas com ele tive uma boa iniciação, era muito divertido o convívio com ele era uma viagem para escutar e tirar músicas de rock, e rock progressivo que era o que mais me interessava na época. Depois fui seguindo de forma auto-didata e perturbando os amigos mais experientes com perguntas e pedindo indicações sobre o que ler e o que estudar. Teoria musical aprendi o básico no colégio mesmo, em escola pública.

GC – Como se formou o trio que o acompanha?
EG – Sou amigo do Paulo há alguns anos. Eu o conheci dando uma canja onde ele tocava e desde então sempre curtimos tocar juntos, e o Bruno eu conheci através dele. Gosto de tocar nessa formação de trio e eles também, mas a verdade é que gostamos de tocar em qualquer formação. Essa coisa de ser um trio acontece por força das circunstancias, acredito. Um disco de guitarrista com essa formação expõe a guitarra como instrumento de destaque de forma natural.

GC – “Insight” traz um repertório autoral, como você trabalha o processo de composição?
EG – A composição é um processo em que só há duas maneiras de acontecer: o jeito certo e o jeito errado.
O jeito certo é trabalhar de forma inspirada construindo sem pensar separadamente melodia e harmonia. A música é a melodia, a harmonia é a consequência da melodia. A melodia diz o caminho harmônico, nunca ao contrário. O jeito errado é aquela coisa de escolher uma sequencia de acordes e bolar uma melodia, geralmente não fica bom, como aquelas músicas que não dizem muito, que parecem que está faltando algo, ou uma colcha de retalhos.

Como eu trabalho meu processo de composição? Não sei. Sigo essas premissas citadas acima, mas, talvez por causa do senso crítico muito severo, eu começo as idéias musicais e na maioria das vezes não consigo terminar. Neste disco, marquei as sessões de gravação com 10 meses de antecedência, mas só compus as músicas faltando pouco menos de um mês para gravar. Espero que as próximas músicas aconteçam de forma mais tranquila. Já estou compondo outras e está acontecendo bem.

Sobre como penso o improviso? É óbvio que é o aspecto da música do qual eu mais gosto e mais me dedico, existem muitos detalhes e nuances. Vou sintetizar dizendo que nós somos como o jardineiro e o jardim, a cada dia podamos cada florzinha e cada plantinha por mais singela e pequena que ela seja e no fim o jardim fica grande e bonito. Tudo o que estudamos é para que na hora de tocar não se pense em nada disso. A música tem que acontecer de forma natural e espontânea, como numa conversa, acho que ninguém conversa pensando nas regras da língua portuguesa. Não é mesmo?

GC – A formação de trio faz da execução algo muito intenso, exigindo forte dinâmica e interação entre os músicos.  Como você pensa a ausência de um instrumento harmônico como o piano na base do grupo?
EG – Essa pergunta, se você me permite, é um bocado contundente, e está calcada em alguns paradigmas que considero muito nocivos à arte e à música. Vou enumerar e desconstruir.

Não ter um instrumento de harmonia por trás está baseado em achar que a música é um colchão de acordes com uma melodia flutuando por cima. Isso é um dos maiores equívocos da maioria dos músicos que conheço. Se isso fosse uma verdade Mozart e outros tantos compositores não teriam composto tantas obras primas para quarteto de cordas, mas sim para quarteto de cordas e piano.

A harmonia não é uma sequência de acordes, a harmonia é estar em harmonia. Um saxofonista que conheça bem harmonia é capaz de tocar sozinho e descrever todo o caminho harmônico em sua melodia. Quando toco com o Bruno e com o Paulo estamos em harmonia, tudo o que tocamos tem que fazer sentido com o que o outro está fazendo. A guitarra é um instrumento que faz acordes tal qual o piano, mas não pode preencher tudo, tem que tocar junto e saber a hora de não tocar nada. Na improvisação dos colegas de qualquer instrumento, na hora de fazer um acorde tem que escutar antes e fazer o acorde depois, nunca ao contrário. e muitas vezes não tocar nada. O fato de ser intenso, em qualquer formação tem que ser assim, não só com um trio, tem que ter interação e dinâmica senão não é conversa, é palestra, é monólogo com os outros apenas dizendo amém. A música é uma linguagem. Ao contrário do que muitos pensam, piano não é obrigatório e pianistas não são os donos da harmonia. Tem que tocar e deixar os outros tocarem, ninguém gosta de participar de uma conversa quando um fala sozinho o tempo todo e não deixa os outros falarem, não é verdade?

Assim, tenho que discordar totalmente quando você questiona não ter instrumento de harmonia por trás – tem sim, e no caso tem 3 instrumentos de harmonia, por trás, pela frente, por cima, por baixo, pelos lados e na quinta dimensão.

GC – Pode citar referências e/ou influências na sua formação e na sua música?
EG – Essa coisa de enumerar influências é algo que rotula o músico de uma forma que não gosto. Procuro ser original, coisa muito difícil pois tudo o que nós escutamos fica dentro de nós, o que é natural, mas temos que ter nossa própria voz. Vou me limitar a dizer que quando eu era moleque adorava, e adoro até hoje, o AC/DC e me interessei por guitarra escutando o Angus Young tocar, então posso dizer que ele é minha principal influência, mas acho que essa música que faço com o Paulo e com o Bruno não tem nada a ver com isso.

GC – Que equipamentos usou na gravação do disco?
EG – Gravei o disco com minha Gibson 175, amplificador Markbass e efeitos Reverb e Delay muito de leve. Foi simples, nada demais, não só porque gosto do som assim, mas porque era mais prático.
Em shows uso um pedal oitavador polifônico HOG2 da Eletro Harmonix; também usava uma Gibson 335 que foi roubada, mas hei de recuperá-la, seu número de série é 13341700.

Obrigado Eduardo Guedes, e sucesso.