Joana Queiroz: a arte do sopro em dois tempos

Joana Queiroz: a arte do sopro em dois tempos

Joana Queiroz Mont

Joana Queiroz é uma das mais criativas e talentosas instrumentistas de sopro que se tem notícia dentro do cenário da atual música instrumental brasileira. Já a conhecia da Itiberê Orquestra e trabalhei na divulgação de seu primeiro cd lançado há quatro anos. Agora, nesse começo de ano, Joana nos brinda com sua arte em dose dupla: “Boa noite para falar do mar” no formato de sexteto e “Diários ao vento”, trabalho solo. Desfrutem agora um pouco da palavra e a música dessa grande artista da terra brasilis.

Wilson Garzon – Conte-nos um pouco da sua trajetória musical: a escolha dos instrumentos de sopro, encontro com o jazz (música instrumental) e a sua participação na Itiberê Orquestra.
Joana Queiroz – Comecei muito cedo tocando flauta doce e isto me conectou com os instrumentos de sopro. A clarineta porém não foi planejada, foi um instrumento que me encontrou, me foi sugerido na Banda Sinfônica Euterpe Friburguense, onde tinha ido estudar teoria e planejava aprender sax ou flauta transversa. Me apaixonei pelo instrumento e nunca mais larguei. Depois veio o clarone, o sax alto, substituído posteriormente pelo sax tenor, e só agora estou estudando flauta….

Sempre gostei muito de música instrumental, ouvi muito Gismonti, Baden Powell, Thelonious Monk, Villa Lobos, dentre outras pérolas encontradas nos vinis da minha avó na adolescência. Tinha um amigo que também tinha discos maravilhosos dos pais na sua casa, e ouvíamos juntos outras bonitezas como Edu Lobo, Tom Jobim, etc. Hermeto Pascoal foi uma descoberta marcante e determinante, aprofundada a partir do momento em que entrei em contato com a Itiberê Orquestra Família, grupo que integrei por quase 10 anos e que foi uma grande escola pra mim. A música do Itiberê Zwarg abriu um universo de possibilidades sonoras no meu percurso, e foi uma experiência muito intensa e rica.

WG – Em relação a seu primeiro cd, a sua concepção para ser foi uma síntese do seu trabalho até esse momento ou representou uma nova proposta musical?
JQ – Meu primeiro CD foi resultado da minha primeira experiência tocando músicas minhas com um grupo. A minha ideia inicial era só juntar amigos pra tocar coisas de que gostássemos, e a medida em que fui levando músicas minhas eles me incentivaram a assumir o trabalho e levá-lo adiante como uma proposta autoral minha. Foi um processo rs. Mas quando resolvi gravar, já estávamos tocando as músicas há um tempo, foi praticamente uma gravação ao vivo, em poucos dias. Não se tratou de uma síntese, mas de um registro do que já estávamos fazendo.

WG – Agora no começo de 2017, você apresenta dois novos trabalhos: “Boa noite para falar do mar” e “Diários ao vento”. Você gostou de participar do processo de crowfunding? Você acredita que hoje em dia é uma alternativa melhor que a lei cultural?
JQ – O crowdfunding tem um lado muito interessante de te conectar com o público e proporcionar um contato mais direto com as pessoas interessadas na sua música, assim como ajuda o trabalho a chegar a novas pessoas. É muito legal pensar que com esta união podemos viabilizar trabalhos que talvez não fossem possíveis de outra maneira. Mas também pode ser um processo bem cansativo.

Os editais tem uma demanda burocrática mas não requerem tanto trabalho de formiguinha pra trazer apoiadores, e é mais factível conseguir valores que proporcionem uma produção mais confortável. Mas você depende de uma curadoria que nem sempre estará inclinada ao seu trabalho. Acho importante que ambas as possibilidades coexistam. Acho imprescindível as políticas públicas para as artes.

WG – Como foi o processo de gravação de “Boa Noite”? Como era no formato de sexteto, foi difícil agendar com os músicos?
JQ – O “Boa Noite” foi gravado em praticamente 3 dias. Juntamos o útil ao agradável fazendo uma viagem com todas as famílias dos músicos para este lugar lindo que é a Fazenda das Macieiras, onde fica o estúdio mantido por Arthur e Alexandre Andrés em Entre Rios de Minas. Aproveitamos um período de férias já, e como estávamos entre amigos de longa data, e com muitas crianças, foi uma delícia. Também gravamos quase tudo ao vivo, e músicas que já tocávamos há tempos.

WG – Qual o conceito proposto para “Boa Noite”? Uma continuação do seu primeiro trabalho? Uma nova abordagem musical?
JQ – O disco “Boa Noite pra Falar com o Mar” é a continuação natural do primeiro disco. A Beth Dau, que participou de duas faixas no primeiro disco, passou a tocar cada vez mais com o grupo, assim como o Rafael Martini, e foi natural que estivessem em quase todo o disco desta vez. O trabalho que inicialmente era de quarteto, se tornou sexteto, mas a proposta musical (linguagem, interação, liberdade) seguiu pelo mesmo caminho.

WG – Das oito músicas do repertório, seis são de sua autoria. Fale-nos um pouco sobre elas (quando ficou pronta, ideia central e sua relação com as homenagens). E em relação às músicas de Hermeto e Lea Freire, elas pertencem a que trabalho dos autores ou são inéditas?
JQ – A maior parte das músicas estavam prontas há bastante tempo.
“Cânticos XII” foi um exercício quando por volta dos 22 anos eu e Bernardo escolhemos um poema pro outro musicar;
“Estrada” foi feita para um disco gravado na Itália em 2012 (com outro nome e letra um pouco maior e diferente);
a faixa título foi feita para um amigo mas não tinha nome, e ele mesmo a nomeou, e acabou dando nome ao disco;
“Uma Dança” foi feita numa viagem à França, inspirada por um amigo violinista de lá.
“La Sorpresa” foi feita para Carlos Aguirre durante uma troca de emails com ele, e é inspirada na sua bela musicalidade. Tem música que não lembro bem quando e como surgiu, achei em registros antigos e achei que tinha a ver gravar.
“Na Guaribada da Noite” é um tema incrível do Hermeto que conhecemos há tempos através de um vídeo do youtube, de um show do grupo. Era o único registro de que tínhamos notícia, mas hoje temos uma gravação do André Marques trio – não sei se há outras….
“Temperança” , da Léa Freire, me foi apresentada pela amiga e grande pianista Erika Ribeiro, que me passou a partitura. Não sei se tem gravação dela, preciso pesquisar…


WG – Já “Diários”, que é um trabalho solo, foi gravado na mesma época que “Boa Noite”? Existe um conceito nesse seu trabalho ou ele é totalmente baseado no improviso em cima de temas cotidianos?
JQ – O “Diários de Vento” foi um processo bem particular. Surgiu a partir da residência de composição que participei em TerraUna, em 2014, onde deveríamos desenvolver um trabalho e gravá-lo, sem a participação de outros músicos. Pensei em me inspirar no dia a dia de lá, e como toco basicamente instrumentos de sopro achei que este nome “Diários de Vento” retratava bem a idéia. TerraUna é uma ecovila bastante afastada do Rio (4h de carro) e ao longo dos dois anos subsequentes à residência aproveitava quando tinha algum tempo livre para passar alguns dias lá dando continuidade ao trabalho. Foi uma experiência de composição, gravação, edição, mixagem…. apenas a masterização foi feita no Rio. Então foi um processo experimental e lento, mas muito gratificante.

WG – A presença vocal nos seus trabalhos está cada vez mais destacada. Esse balanceamento entre o vocal e o instrumental é uma das características da tua obra?
JQ – Sou apaixonada por este cruzamento entre a canção e a música instrumental. Não gosto desta separação acirrada que ainda aparece em certos meios, acho legal quando as linguagens se misturam e a gente pode tocar uma canção com a liberdade que é mais inerente à música instrumental, ou tocar um tema instrumental como se fosse uma canção. Acho que isto é uma marca importante do meu trabalho sim, e pretendo seguir usando a voz de diversas maneiras.

WG – O que está planejando em 2017 para divulgar os cds e também em participar de novos e antigos projetos?
JQ – Este ano sinto que há uma perspectiva de abrir e viajar mais, inclusive tocando o repertório dos discos com outros músicos. Em março farei alguns shows em Salvador com músicos de lá, e estou estudando a possibilidade de fazer o mesmo em outros lugares. Ao mesmo tempo pretendo trabalhar para viabilizar apresentações do trabalho com a formação original do disco, músicos queridos com quem certamente tocarei por muitos e muitos anos, acho que pra sempre :-). Tem outros projetos de que faço parte com muitos planos pra 2017, principalmente a Quartabê, que em breve lançará o novo EP cheio de participações especiais. No ano passado gravamos um outro projeto, de trio (com Rafael Martini e Bernardo Ramos), para um selo japonês, e planejamos trabalhar mais com este projeto este ano. O sexteto de sopros “Inventos” também planeja um novo disco, e eu também já estou pensando num próximo, e em novas parcerias…..