‘Monk’ de Joey Alexander e ‘Tentet’ de Anat Cohen

‘Monk’ de Joey Alexander e ‘Tentet’ de Anat Cohen

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil 

 

O prodigioso Joey Alexander toca Monk ao vivo (28/10/2017)

Quando não tinha ainda comemorado o seu 12º aniversário, no início de 2015, o pianista Joey Alexander foi festejado como um incrível menino-prodígio, com o lançamento, pela Motéma, do CD My Favorite Things – um dos finalistas do Grammy daquele ano nas categorias jazzísticas “melhor álbum” e “melhor solo improvisado”. No ano seguinte, o seu segundo registro para a mesma etiqueta, Countdown, foi também nomeado para o Grammy.

Agora, aos 14 anos, ele não é mais admirado apenas – o que já seria muito – por se tratar de um garoto-prodígio. Joey Alexander, nascido Josiah Alexander Sila, em Bali, Indonésia, é um pianista prodigioso. Pouco depois de chegar com a família aos Estados Unidos, em 2014, obteve o visto “0-1” (para estrangeiros de “extraordinária habilidade”), e radicou-se em Nova York.

Em junho último, no quadro de celebrações do centenário de Thelonious Monk (1917-1982), Alexander foi a estrela de um concerto no Appel Room do Jazz at the Lincoln Center, lá no Columbus Circle, em Nova York. E a Motéma gravou, ao vivo, o show do virtuose, que já está disponível nas plataformas e lojas virtuais, sob o título Monk.Joey.Live!.

No menu, sete das mais conhecidas e significativas composições de Thelonious Sphere Monk, o “High Priest of Bop”, que são interpretadas – e até “recompostas” – sem nenhuma intimidação, seja em solo (Round midnight e Pannonica), seja em trio (as outras cinco) com os renomados Scott Colley (baixo) e Willie Jones III (bateria).

Dan Bilawski observou com muita propriedade na review do álbum para o site All About Jazz: “Alexander disseca e recria clássicos de Monk, honrando uma de nossas mais icônicas figuras, mas sem deixar o legado eclipsar o tempo presente. Basta ouvir os primeiros dois minutos da faixa de abertura, Round midnight (5m45), (…) para que se entenda que se trata de Monk, mas nos termos de Alexander”.

Realmente, o tratamento da mais famosa balada de Monk, em termos melódico-harmônicos, a partir de uma inusitada introdução politonal, é mais do que surpreendente. É uma “recomposição” ousada de um músico que ainda não fez 15 anos, mas que tem técnica e cultura musicais raras, como exibe, logo em seguida, em Evidence (8m25).

As outras faixas de Monk.Joey.Live são: Ugly beauty (7m10), com realce também para o baixo de Scott Colley, em contraponto com o teen ager líder; uma versão bem animada de Rhythm-a-ning (6m25), aberta com solo do baterista William Jones III; uma notável metamorfose da complexa Epistrophy (8m); Straight no chaser (10m50), recomposta de cabo a rabo, com referências ao stride piano do Harlem da década de 1930 em meio ao clima pantonal monkiano.

Ouçam e vejam a versão de Evidence em:

www.youtube.com/watch?v=q_LFXNJzNwY)

 

 

Anat Cohen lidera tenteto em ‘Happy Song’ (21/10/2017)

 

Há quase um ano (26/11/2016), esta coluna foi dedicada a Anat Cohen – a mais brilhante clarinetista da atual cena jazzística, independentemente de gênero – quando ela se apresentou no Brasil quando do lançamento do CD Outra Coisa/The Music of Moacir Santos (Anzic Records), em duo com o notável violonista (de sete cordas) Marcello Gonçalves. Em 2015, Anat já tinha empolgado a crítica especializada com um outro registro de temática e “jeitinho” brasileiros: Luminosa, à frente do trio Jason Lindner (piano)-Joe Martin (baixo)-Daniel Friedman (bateria).

A irrequieta e sempre criativa jazzwoman israelense-novaiorquina está de volta às lojas virtuais, no seu selo Anzic, com o álbum Happy Song, gravado no ano passado. Desta vez, na liderança de um tenteto, contando com direção musical e arranjos de seu conterrâneo, amigo e colaborador Oded Lev-Ari, que emigrou para os Estados Unidos para ser aluno do grande Bob Brookmeyer (1929-2011) no New England Conservatory.

A clarinetista (que também é craque no sax tenor) tem uma respeitável discografia, desde os tempos em que integrava o sexteto 3 Cohens, ao lado de seus irmãos Avishai (trompete) e Yuval (sax soprano). Nas formações à frente de trio ou quarteto, firmou a sua reputação em três discos empolgantes: Notes from The Village (2008), Live at The Village Vanguard (2010) e Claroscuro (2012).

Mas em Happy Song ela tem, pela primeira vez, a oportunidade de “desfilar” pelo “tapete vermelho” provido por uma formação bem maior. No caso o tenteto dirigido por Levi-Ari, integrado pelos seguintes músicos: Sheryl Bailey (guitarra), Nadje Noordhuis (trompete), Owen Broder (sax barítono), Nick Finzer (trombone), Rubin Kodheli (violoncelo), Vitor Gonçalves (acordeão), James Shipp (vibrafone, percussão), Tal Mashiach (baixo) e Anthony Pinccioti (bateria).

A faixa-título, de quase quatro minutos, é levada numa batida bem “sambada”, o clarinete saltitando por sobre um envolvente crescendo polifônico. Valsa para Alice (4m40) é uma melodia melancólica, desenvolvida com intervenções do vibrafone e do acordeão de Gonçalves (membro do quarteto Choro Venturoso que Anat às vezes reúne em Nova York). Oh baby (8m35) é uma homenagem explícita a Benny Goodman (que gravou o tema em 1946), com intervenções do vibrafonista Shipp e da guitarrista Sheryl Bailey.

A faixa central da setlist é uma espécie de suíte em três partes, intitulada Anat’s Doina (12m15). Com a palavra o colunista especializado do Chicago Tribune, Howard Reich: “A suíte inspira-se profundamente na música klezmer e evoca de modo pungente a vida dos judeus na época passada na Europa Oriental”. Mas na parte final, a clarinetista-compositora decide “to write my own take”, e encerra a suíte naquele clima alegre e celebratório típico das festas de casamento judaicas.

As outras faixas de Happy Song são: Loro (6m50), de Egberto Gismonti, interpretada num ritmo corrido de chorinho (e de baião), e realce para a “sanfona” de Gonçalves; Trills and thrills (6m55), ou seja, “trinados e emoções”, incluindo um solo “eletrizante” da guitarrista Bailey; Goodbye (4m30), peça meditativa de Gordon Jenkins; Kenedougou Foly (5m40), de melodia e impacto rítmico típicos da África Ocidental, acentuados por riffs constantes do conjunto.