Na estrada com as ‘Cores’ do Júlio Bittencourt Trio

Na estrada com as ‘Cores’ do Júlio Bittencourt Trio

Conheci Júlio, Luciano e BJ, que formam o JB Trio, há muito tempo, desde os idos de 2008, em minhas andanças por Penedo/RJ, onde eles se apresentavam com Bernard Fines no Jazz Clube do Hotel Pequena Suécia. Desde essa época, sempre acompanhei a evolução e a produção musical do trio, que mesmo residindo em Cruzeiro/SP, caiu na estrada para divulgar sua música e acreditar em seus sonhos. Destaco também o trabalho que eles, através do Instituto Musical Bittencourt, ensinam e divulgam o jazz em sua região. Nesse entrevista, o baterista e líder do trio, Júlio Bittencourt, conta as histórias, a evolução musical e o cd que agora o trio está lançando: “Cores”.

 

Wilson Garzon – Como se deu a escolha pela bateria?montagem
Júlio Bittencourt – Quase todo mundo responde que tocava em panelas na infância. Comigo não foi assim. Apesar de ter um avô que foi cantor profissional na “era de ouro” da Rádio Nacional e ter estudado um pouco de piano clássico aos 10 anos, eu só fui dar conta da bateria aos 16  e ainda por cima, de uma maneira muito curiosa: estava na escola e tive um “estalo” : Vamos montar uma banda? Você toca violão outro amigo canta e eu vou tocar bateria!! Só que nunca tinha visto uma de perto ou me interessado em aproximar de algo assim. Descobri que na escola  um sujeito que tinha em casa e aí fui lá conhecê-la de perto e aprender os primeiros toques.

WG – E pelo jazz?
JB – O jazz veio intuitivamente por ‘osmose auditiva”. Meu pai sempre foi muito fã das big bands e de Frank Sinatra; na infância, ouvi muito naquelas fitas cassetes que se empilhavam no porta luvas do carro. Isso, juntamente com os cantores da MPB que minha mãe colocava na vitrola enquanto arrumava a casa, como Chico Buarque e  Elis Regina. Mas, comecei pelo rock dos anos 80 e não queria saber de nada daquilo. Estudei com Duda Neves, que me mostrou muitas coisas bacanas (nessa epoca fazia bailes profissionais, onde se tocava de tudo). Na faculdade, meu mentor foi Toniquinho (baterista da Jazz Sinfônica). Assisti a muitos ensaios e não teve outro jeito a não ser, seguir por este caminho.

WG – Em 2001, vc cria o JB3 junto com Luciano Bittencourt (baixo) e BJ Bentes (baixo). Qual foi o conceito do trio na época?
JB – Bem na verdade comecei o JB Trio com Luciano e Marie, 2001 que era a baixista na época que por problemas de agenda e trabalho não podia seguir com ensaios etc… O BJ Bentes apareceu um ano após iniciarmos o trio. Mas começamos a tocar em uma região que nunca tinha recebido grupos de jazz! Para ilustrar melhor, um dos momentos mais engraçados foi quando vendia uma apresentação para o dono de um restaurante dizendo dos “benefícios” de fazer uma noite de “ Vinhos queijos e jazz”: a mulher dele entra na conversa dizendo que no palco não caberiam as bailarinas! rsrs.. Aí, fui obrigado a conter o riso e explicar que nosso jazz era outro.

WG – Nos cds do trio, eles variam tematicamente de um para outro?
JB – Mesmo tendo acesso na faculdade, não tinha muita cultura geral sobre jazz, era bem segmentado e nessa primeira formação gravamos CD Ao vivo, com famosos standards norte-americanos e brasileiros e a busca era por uma linguagem correta. No segundo álbum, já mais maduros, fizemos uma releitura de marchinhas de carnaval em jazz: “Carnaval Moderno”. Depois gravamos um CD com releituras e só no quarto é que vieram as composições próprias, “Caminho Natural”, onde tínhamos a certeza que era resultado da química do grupo e não um quebra cabeça de canções. Depois disso, gravei um projeto solo chamado “Deslimites”, que são duos de bateria com vários instrumentos: flauta, violino, voz, percussão, sax, guitarra, etc.. trabalho do qual também tenho muito orgulho, e onde tive o apoio da marca de bateria que represento Grestch. Atualmente, estamos lançando “Cores.

WG – Uma das características do trio era o lado on the road: viajar e se apresentar acabou amadurecendo o som do trio? Como foi a experiência com Bernard Fines?
JB – Sem dúvida a estrada amadureceu muito e o encontro com o cantor francês Bernard Fines foi um capítulo à parte da nossa história. Nós o conhecemos em Penedo-RJ e nos encontrávamos no mesmo momento profissional. Foi “lenha na fogueira”: todos com vontade de criar, tocar e colocar para fora as nossas ideias musicais. Aprendemos com ele música francesa, conhecemos grupos europeus, tocamos com grandes artistas e ainda gravamos dois CDs: um com releituras de músicas francesas e outro (duplo) de composições próprias de Bernard.

Devemos muito a ele, pois abriu portas importantes para o nosso trabalho. Fizemos várias turnês pelo Brasil em importantes festivais, além de compartilharmos o palco com Gilson Peranzzetta, Manu Le Prince, Zeca Baleiro, Gabriel Grossi, Jessé Sadoc, Luis Alves, Nelson Faria e Idris Boudriua, entre outros. Além de Bernard, tocamos com a cantora americana Rodica Weitzman, que também é uma pessoa muito talentosa e generosa.

WG – Em 2016, o trio apresenta Cores. Como se chegou a esse conceito entre música e cor? Estilo musical, emoção e sentido?
JB – Assim como a música pode ser sentida como as vibrações produzidas no ar, as cores podem ser sentidas como as vibrações produzidas na luz e dessa forma, pode-se dizer que ambas são formas nas quais a energia pode manifestar-se! Esta ideia me ocorreu em 2013 e desde lá venho pesquisando e conversando com o trio para gravarmos esse projeto. Ele consiste numa ideia simples, a de transmitir em músicas, as emoções que sentimos com as cores.

Muitos músicos já fizeram essa relação; o próprio Miles Davis gravou um CD e o Elvin Jones, um dos meus bateristas prediletos, enxergava cores nos pratos e nos sons que tirava da bateria. Durante a gravação no estúdio, nós deixávamos apenas a cor relativa à faixa acesa e acreditamos que isso foi incrível, pois nos ajudou a sintonizar o sentimento correto. No encarte, eu explico qual a relação que fizemos detalhadamente. Por exemplo, a “Violeta” foi gravada no primeiro e único take de tão forte que foi a sintonia.

Na gravação, participaram o saxofonista Almir Clemente, que praticamente faz parte do trio, que se transforma em Julio Bittencourt e Trio. Outro músico que deixou sua marca em nossa trabalho foi o percussionista André Rass, que trouxe um floresta na música “Verde” e ainda dois  argentinos Fernando Farias (violino) e Leopoldo Comisso (Violoncelo), além da flauta de Dinho Majela e o pandeiro suingado de André Freitas na música “Amarelo“. Para a composição das músicas e produção do disco, buscamos conhecimentos na cromoterapia e na sinestesia, o que possibilitou o alcance das traduções sonoras de sete colorações distintas, uma para cada faixa do trabalho. Obs: na capa a arte da capa é a fotografia de uma árvore de verdade /sem filtros/ ela se chama Eucalypitos deglupita. O criador da capa do CD foi Hugo Penedo.

WG – Vocês já fizeram (ou pensaram fazer) apresentações junto a pessoas com necessidades (cegas), crianças, balé, com o propósito de ampliarem esse interação?
JB – Temos muitas ideias. A primeira, que estamos aplicando nos shows é iluminar a plateia juntamente com o trio; com isso extrapolamos o convencional e conseguimos mais que música uma experiência sensorial com todos que participam. As reações são incríveis e as pessoas percebem toda mudança da energia entre as cores coma música.

Eu já dou aulas há mais de 20 anos e sempre incluo alunos com necessidades especiais. Tenho, por exemplo, uma aluna surda que toca muito bem bateria. Queremos sim, ampliar estas experiências sensoriais e tenho certeza que esta porta que abrimos nos levará a caminhos ainda inimagináveis. Afinal, nós acreditamos que somos o primeiro grupo brasileiro a fazer esta mistura do jazz com as cores.

WG – Como vcs estão divulgando o trabalho? E a repercussão junto à mídia?
JB – Nós estamos no primeiro momento da divulgação mas em todos os shows a repercussão é muito boa e recebemos um feedback positivo,  são todas composições próprias. O CD pode ser ouvido no Spotify e  ainda e canais como Itunes, YouTube e Facebook; pessoas do mundo todo tem acesso. Revistas especializadas como a Bass Player e a Modern Drummer fizeram matérias especias sobre o Cd e agora com Clube do Jazz temos a certeza que nosso trabalho vai ser conhecido por muita gente especializada.

WG – Conte-nos um pouco sobre o IMB: atividades, projetos….
JB – Bem, temos um centro cultural chamado IMB-Instituto Musical Bittencourt na cidade de Cruzeiro-SP. Aqui, movimentamos mais de 200 alunos entre guitarristas, bateristas, violonistas etc… São músicos de toda região do Vale do Paraíba, Sul de Minas e Sul Fluminense. Além dos projetos com alunos, temos um clube de jazz dentro da escola, o IMB Jazz Clube, onde toda terça feira, está aberto gratuitamente para uma jam session com o JB Trio e convidados.

Já tivemos grandes músicos participando como o próprio Bernard Fines, Ju Cassou, André Tandeta, Ceumar, Pedro Mello, Luis Alves, Dinho Majela, etc… Neste ano, criamos o primeiro IMB Jazz Festival em julho e tivemos uma surpresa, com casa cheia todos dias e contamos com a presença de artistas consagrados como João Cristal, Marinho Andreolli, Alê Damasceno, Cristian Grosselfinger, Flavio Barba etc..

Com apoio do Marcus Rossi, nós transmitimos ao vivo toda terça em nosso site www.jbtrio.com.br  às 18h30 e estamos tendo acesso de vários países que nos acompanham pela net. Deixo bem claro que o palco está aberto a todos músicos que venham e queiram dar uma canja ou mostrar seu trabalho de grupo ou solo. Precisamos de lugares como esse para que a expansão cultural seja mais concreta e o público entenda e promova mais locais para se tocar o jazz.

 

 

 

 

 

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