O violão cirúrgico de César Costa

O violão cirúrgico de César Costa

Dentro da cena instrumental de Beagá tive a oportunidade de conhecer o dublê de músico e médico César Costa. Nosso primeiro contato foi como jazzófilos militantes e em seguida, ele me apresentou seu trabalho em CD e ficamos de produzir uma matéria sobre “Ponto de não retorno”. Agora é o momento de apresentar esse grande instrumentista, além de uma excepcional figura humana.

 
Wilson Garzon – Violão foi seu primeiro instrumento?
César Costa – Não; o violão foi, juntamente com a guitarra elétrica o meu segundo instrumento. Comecei estudando piano aos 6 anos; tive aulas particulares até aos dez e daí em diante, a professora falou que precisava comprar um piano para praticar com mais frequência e depois, iniciar o conservatório. Como comprar um piano era bem difícil, passei a me interessar pelas seis cordas…essa mudança ocorreu quando eu tinha 11 anos.

WG – Quando o jazz apareceu na sua vida?
CC – Nesse tempo eu já gostava de música “imprópria” pra aquela idade: ouvia rock progressivo (Floyd, Yes, Focus,Genesis, etc…) influenciado por primos, e também algumas obras do erudito. Aos 14 anos, fui apresentado ao Jazz através do meu professor de física, que me mostrou  George Benson, Larry Corryel,  Weather Report, Oscar Peterson e Joe Pass.

WG – Quais foram suas maiores Influências?
CC – Influências, eu tive várias, vindas de diversas fontes; dentro do cenário do jazz, as mais marcantes foram as de Bill Evans, Vitor Assis Brasil, Keith Jarrett, John McLaughlin e Hélio Delmiro. O violão brasileiro teve muito peso também na minha formação. Não me esqueço das séries antológicas de  “Concertos para Juventude” pela GLOBO(da época) e do Sebastião Tapajós tocando as cantigas e cirandas de roda e o cancioneiro folclórico ao violão, de um jeito muito sofisticado e com muita brasilidade, aquilo me marcou muito.

WG – E a questão da compatibilidade entre o músico e o médico?
CC – A escolha pela profissão médica em “concorrência” com a vocação para a música, realmente foi uma situação delicada, pois são duas atividades que exigem muita dedicação, cada uma. Eu sempre fui meio autodidata e muito intuitivo musicalmente, diferente da área médica que me exigiu muitas noites em claro estudando pra provas do dia seguinte. Confesso que isso me prejudicou um pouco no aprimoramento como instrumentista, mas por outro lado, isso não me impediu de explorar minha musicalidade sempre que surgiam oportunidades.

Bem, a decisão de seguir em frente com a proposta de me tornar (efetivamente) músico, foi com toda certeza, tomada. Agora, dizer que o “conflito” foi resolvido, é um pouco demais… (rsss) mesmo porque quando decidi trilhar o caminho da música (e não é qualquer tipo de música) temos a consciência da pedreira que está logo ali à frente, e que teremos que enfrentar até o último dia de nossa vida.

WG – Quando você começou a compor?Cesar Costa-mont
CC – Eu componho desde muito cedo. Por exemplo, a música Banana Maçã, que abre o CD, eu compus há 20 anos. Eu resumo isso da seguinte maneira: Eu componho muito ao sabor do momento, e faço músicas muito espaçadamente, nunca “por atacado”…rsss

WG – Conte-nos um pouco sobre o processo de criação de suas músicas que estão presentes no CD.
CC – As músicas autorais do CD foram feitas em épocas e momentos distintos. A mais recente foi “Siga-me”. Existem duas que foram compostas com letra: “Cavalo de Troia” e Desvio (a letra é de Claudia Abreu); na primeira eu suprimi a letra (gravei só  instrumental), mas na segunda mantive a letra (é a única cantada do disco);
Lua de Papel é da minha época de faculdade (tem mais de 30 anos) e possuía letra minha também;
Banana maçã, que abre o CD, é também uma composição antiga, e remete ao clima de “bossa nova com traje de gala”; pelo menos essa foi a ideia;
Estava escrito foi feita em parceria com o Eneias (ele me ajudou a terminar a segunda parte). Estávamos no estúdio e não tinha nome quando a terminamos, então aproveitando que eu e ele somos atleticanos, e como o Galo naquele ano tinha ganho a Libertadores, achamos que “Estava Escrito” caia bem.

WG – E a inclusão de clássicos da MPB e do Chick Corea?
CC – Folhas Secas foi escolhida porque sempre considerei Nelson Cavaquinho um gênio, tenho um vinil do Rildo Hora com Romero Lubambo no qual eles tocam ela no arranjo original. Então pensei em fazer um, com uma levada mais groove, e acho que o resultado deu certo.
Querido Diário foi extraída de um disco antológico da nossa música, o “Comissão de Frente” de João Bosco e Aldir Blanc (1982) e arranjada por César Camargo Mariano; é muito boa de se tocar, com ótimos passagens para improviso.
Windows é simplesmente uma obra-prima e é do Chick Corea… precisa dizer mais alguma coisa? Então eu digo: Tinha que ter um “jazz” no CD, e aí eu e o Eneias não tivemos dúvida, era Windows!!

WG – Como se deu a escolha dos músicos e convidados?
CC – Quanto à escolha dos músicos, o produtor e  contrabaixista Eneias Xavier, me perguntou quem eu queria chamar. Achei que o ideal seria reunir um time enxuto (não tínhamos tempo nem recurso pra convidar muitos), competente e com tarimba de gravação. O Eneias já era bem entrosado com o baterista Lincoln Cheib e eu tinha conhecido, há pouco, o trabalho do pianista Christiano Caldas, que me impressionou bastante.

Em relação às participações, tive a sorte de contar com o meu amigo e cantor Gladsto Galliza estar de volta ao Brasil (tinha passado onze anos na Espanha) exatamente no mês que entrávamos pro estúdio, e ele topou de cara fazer a voz em Desvio;
uma jovem revelação foi o Gilberto Junior, trompetista de Diamantina, que conheci através de indicação do Eneias. Ele fez tema e solo em Cavalo de Troia e naipes de metais, juntamente com o Chico Amaral (sax tenor) em Desvio.
Não havia ainda tocado com nenhum desses músicos , exceto com o Gladston (que já conhecia de longa data) e o Eneias, com o qual tive algumas gigs em comum no passado.

WG – Como foi o processo de gravação do CD?
CC – O processo de gravação foi extremamente prazeroso e profícuo. Lembro-me que os técnicos de gravação e mixagem elogiaram a eficiência que demonstrávamos em cada período de gravação, tendo sido o CD todo feito num total de 20 períodos (cada período é de quatro horas). Se considerarmos que nunca havíamos tocado juntos antes, e a música instrumental, por si só, requer um certo tempo para que o som “dê liga”, podemos concluir que fizemos o trabalho com precisão cirúrgica…

WG – E quanto à divulgação?
CC – Quanto à divulgação, estou fazendo um parceria com a Tratore que é uma empresa que faz a divulgação e distribuição do CD tanto virtual quanto físico, no país e fora dele, mediante um cadastro e um contrato no qual se estipula um percentual de consignação para comercialização do produto. Eu acho que esse meio pode ser a chance do trabalho ser conhecido em outras regiões e também em outros países.

WG – E em relação à repercussão do cd até agora?
CC – Com relação à repercussão do disco, só posso dizer o que eu tenho recebido de feedback daqueles que ouviram ou adquiriram o CD, porque eu não consegui ainda um veículo com o qual eu pudesse alcançar um numero de ouvintes maior. Então fica ainda na âmbito dos conhecidos e amigos de conhecidos que chegam a ouvir o trabalho. Nesse âmbito, o retorno tem sido muito gratificante, tenho recebido (informalmente) muitos comentários elogiosos, o que é claro, me deixa muito contente.

Uma coisa muito legal foi que no ano de 2014, o Valério Fabris, presidente da Inconfidência FM 100,9, me pediu uns exemplares do cd para poder tocar na programação da faixa instrumental da rádio e isso me possibilitou ser escutado um pouco pela galera que ouve rádio. Num certo mês onde o set list instrumental do programa colocava 10 músicas pra serem acessadas no site, num período de 2 meses seguidos, a Banana Maçã foi a segunda mais acessada (acho que na época com mil e poucos acessos).  Essa tarefa de levar o seu produto artístico até o público é um ‘trabalho de formiga”, tem que ser diário e muito constante, não é nada fácil. E eu confesso que tenho tentado, mas tem certos momentos que dá um desânimo, as barras são muitas, mas, enfim…

WG – E daqui para o futuro, o que anda pensando?
CC – Minha proposta daqui pra frente é tocar, tocar e tocar, sempre que surgir um espaço que te receba, um lugar ou um projeto que tenha a ver com a sua proposta musical, eu vou com certeza fazer de tudo pra estar dentro. Também vou continuar compondo, essa veia eu não quero deixar de lado, acho que me faz muito bem ver uma composição terminada e pronta pra receber uma “roupagem” quando me junto com uma banda e a toco. É isso aí. Valeu!