Vinte e nove artistas gravam releituras de canções marcantes da MPB
Augusto Pio, Estado de Minas, 20/01/2026
Com o objetivo de comemorar os 60 anos da música popular brasileira, o álbum “MPB ano zero” (Biscoito Fino) traz 22 faixas com participação de 29 artistas. O repertório traz canções de Chico Buarque, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Renato Teixeira, Baden Powell, Dori Caymmi, João Donato, Djavan, Belchior, Ivan Lins, Chico César, Nelson Angelo e Dona Ivone Lara, entre outros.
“MPB ano zero” conta com 21 minidocumentários de cinco minutos, mais 21 clipes sobre cada artista participante. A produção é assinada por Hugo Sukman, Marcelo Cabanas e Augusto Martins.
Sukman lembra que o conceito de MPB está ligado ao golpe de 1964. “Tínhamos o Brasil e o Brasil bossa nova e, de repente, aconteceu o golpe militar. A bossa nova meio que perdeu o sentido histórico naquele momento. Alguma outra coisa precisava surgir e vieram as chamadas canções de protesto”, diz.
Ligado ao Centro Popular de Cultura, no Rio de Janeiro, havia o Conjunto do CPC. O centro foi fechado pela ditadura, o grupo ficou sem nome. Surgiu assim o MPB4. “Isso meio que consagra a sigla MPB”, informa Sukman.
A partir do golpe, jovens compositores como Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros, fizeram canções conectadas ao momento histórico vivido pelo Brasil.
Duas vertentes
Até meados dos anos 1960, havia duas vertentes na música brasileira, explica Sukman. “Uma lírica, poética, falando dos sentimentos. E vinda de Noel Rosa, do samba, havia a linhagem de crônicas, de comentários sobre as coisas. Com o golpe de 1964, com a nova conjuntura política e com a sigla MPB, a canção brasileira começou a ser marcada pela história. Aliás, defino a MPB como a criação brasileira atravessada pela história”, afirma o jornalista.
“MPB pode ser todo e qualquer ritmo brasileiro com ligação profunda com a história, com o cotidiano e com o que está acontecendo no país. Através dos festivais da canção, esse tipo de música se consagrou. Eles viraram festivais de música popular brasileira, termo não usado até então. Toda aquela geração ganhou este nome, que a partir dos anos 1970 virou sinônimo de música brasileira.”
A Tropicália foi uma crítica à ortodoxia da MPB. “Caetano e Gil começam a incorporar outros elementos, não só brasileiros. E elementos da canção brasileira desprezada por aquele tipo de música. Eles fazem uma crítica da MPB, só que, ao mesmo tempo, são incorporados por ela”, relembra Sukman.
No álbum, artistas contemporâneos gravaram canções marcantes nessas seis décadas de MPB. Entre eles estão Thiago Amud, Illesi, Aline Paes e Bondesom. “A gente se debruçou sobre a produção atual da música brasileira e foi escolhendo quem achávamos mais representativos no momento”, diz Sukman.
O cantor, compositor e pianista paulista Breno Ruiz adorou o convite para participar do projeto. Em releitura voz e piano, gravou “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré.
“Esta canção tem a ver comigo, porque Theo é um dos compositores que abriram uma frente para tornar possível a música que faço. Diria que Dori Caymmi e Tom Jobim também. Pensando em uma ponta mais contemporânea, talvez o Guinga. A minha música passa por todos esses lugares”, afirma Breno.
Ode
“O texto do Vandré só se tornou um ícone porque teve a melodia do Theo. A melodia é o afeto que levou esse papo de Vandré pra frente e fez a canção se tornar o hino que se tornou”, acredita o cantor e pianista.
“Disparada’ é uma ode”, elogia Ruiz. “Sou admirador de Theo, digo que ele empatou com o Chico Buarque. Porém, Chico virou uma figura que até hoje é ícone da cultura nacional. A canção foi atribuída popularmente a Vandré, as pessoas pouco se lembram de Theo, que teve carreira muito discreta, como ele mesmo era. Foi uma honra estar nesse projeto superimportante para a música brasileira”, conclui Breno Ruiz.

