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Selo SESC lança Oscaravelhos

Bossa nova, samba-jazz e humor se encontram no lançamento do Brazilian Grupo pelo Selo Sesc: Oscaravelhos. O veterano quinteto instrumental paulista, que reúne músicos com trajetórias que atravessam mais de 60 anos da música brasileira, demonstra o clima descontraído pelo título escolhido para o trabalho.

Oscaravelhos é uma brincadeira interna e revela a leveza que acompanha a convivência dos integrantes e reflete a intimidade que impera entre os integrantes. O disco parte desse encontro entre diferentes experiências para construir um repertório que dialoga com a tradição e o presente.

A formação reúne o contrabaixista e gaitista Clayber de Souza, o pianista Aluízio Pontes e o saxofonista Hector Costita, ligados à cena do samba-jazz em São Paulo desde os anos 1960, ao lado do percussionista João Parahyba, conhecido por sua atuação no Trio Mocotó, e do baixista Giba Pinto, integrante de uma geração posterior.
Clayber de Souza:
“A relação com o Aluízio foi histórica. Nós tocamos muito juntos. Gosto dele como se fosse meu irmão, tenho um amor fora de série por ele. Sabe como é que é o final do nosso show? No final do nosso show, nós saímos do piano, vamos na frente do público e damos um beijo na boca um do outro. Depois ele sai cuspindo e eu morro de rir. Sempre foi assim. Essa é a relação que eu tenho com esse cara. Foi um prazer que eu tive de gravar a música que ele fez, Meu Bolero“,
O repertório reflete a diversidade de trajetórias e referências do grupo. Ao longo de oito faixas, o álbum traz samba, jazz, choro, bolero e influências latinas, rementendo à formação musical dos instrumentistas em bailes, bares e boates.

A abertura com El Detective, de Hector Costita, apresenta uma atmosfera inspirada em trilhas cinematográficas, com influência de jazz latino, enquanto Nano, também de sua autoria, encerra o disco em forma de samba e foi composta como homenagem a um de seus filhos, a partir de uma lembrança de infância.
Em Samba de Improviso, Aluízio Pontes, o sax dialoga com o vibrafone de Jota Moraes, convidado da faixa. Já Meu Bolero, também de Pontes, apresenta uma composição melódica e romântica interpretada por Clayber na gaita, seguida por um solo de piano.

Aluízio Pontes:
“Nós fizemos um trabalho pesquisando e colocando a alma. Você senta, olha, pega o lápis, pesquisa, escreve. Eu fiquei muito feliz porque eu já nem contava que poderia fazer uma gravação e de repente me aparece essa oportunidade de fazê-la, e eu adorei fazer essas composições”
.

As composições de Clayber de Souza aparecem nas faixas Forrozinho pro campeão, dedicada a Hermeto Pascoal e com participação da beterista Vera Figueiredo e do guitarrista Natan Marques; e Choro-Jazz, que se apresenta como uma melodia cantável que se junta ao vibrafone de Jota Moraes, dando um tom pouco comum em um choro.

Clayber de Souza:

“Foi uma irmandade. O Hermeto me ensinou muita coisa e eu tenho a impressão que eu também ensinei alguma coisa para ele. Talvez muito mais sobre a amizade, a irmandade, do que propriamente musicalidade. Ele foi um cara sagrado pra mim. Ele pra mim um bruxo”.

Valente, de João Parahyba e Paulo Muniz Kannec, uma homenagem ao professor Wilton Valente, presente desde o começo da vida musical de Parahyba, configura-se como um samba-canção com participação de Natan Marques no violão. Já Valseta, de Janja Gomes, filho de Parahyba. reaparece em novo arranjo, retomando gravação anterior feita pelo baterista em 2011.

João Parahyba:
“Ǫuando me pediram duas músicas, eu falei, ‘não, eu queria ver se o Costita e o Clayber, os meus professores, gostam dessa música’. E eles adoraram a música, falaram ‘nós vamos gravar essa’, então eles que escolheram para mim a Valseta”.

O baixista Giba Pinto, que mantém uma relação musical de longa data com Parahyba, destaca a convivência entre os integrantes como um dos elementos centrais do projeto.
“Todos eles ainda tocam muito bem, são criativos e têm uma energia fora do comum quando tocam. Nos divertimos muito a cada vez que tocamos juntos, mas também vejo admiração e respeito mútuo entre eles. É impressionante a seriedade, o respeito que eles têm pela Música”, comenta Giba Pinto.
Hector Costita:
“Então fato de a gente ter se reunido, desses “caravelhos” terem se reunido, é realmente consequência do destino. A gente até fala aqui coincidência, mas não é coincidência essa coisa que tem que acontecer. O acontecimento realmente é muito interessante, porque está reunindo músicos e amigos para fazer um trabalho que manifesta de cada músico a sua particularidade e talento”.
Oscaravelhos, mais do que uma síntese de trajetórias, é um registro de convivência musical, onde memória, prática e criação dialogam em prol da música.