Festival Música do Mundo começa hoje com homenagens a Milton Nascimento
Lucas Lana Resende, Estado de Minas, 12/08/2026
Em setembro de 2009, a cidade de Três Pontas, no Sul de Minas, recebeu a primeira edição do Festival Música do Mundo. A ideia era resgatar o “Woodstock mineiro”, como o “Show do Paraíso” ficou conhecido. Explica-se: em 1977, Milton Nascimento organizou uma espécie de festival na Fazenda Paraíso, na cidade onde foi criado, com apresentações de Chico Buarque, Clementina de Jesus (1901-1987), Gonzaguinha (1945-1991), Fafá de Belém, Francis Hime, Wagner Tiso e Beto Guedes, entre outros.
O evento de 2009 ficou marcado pelo amadorismo, embora tenha contado com artistas de grande calibre, como Tom Zé, Ivan Lins, Wagner Tiso e o próprio Milton Nascimento. Os dois últimos, aliás, foram os homenageados e curadores do festival.
Pastel e crepe
Hoje, reconhece, a edição pioneira do festival deixou muito a desejar em relação à estrutura. “As pessoas só não ficaram bravas porque foram shows emocionantes”, diz.
Nesta quarta-feira (12/8), o Música do Mundo volta à cidade onde Bituca cresceu e Wagner Tiso nasceu. Desta vez, com profissionalismo. A programação se estenderá até domingo (16/8), com atividades educativas, cortejos de fanfarras, saraus, circuito musical de bares, teatro infantil e, claro, música.

Chico Buarque e Milton Nascimento no ‘Woodstock mineiro’Clóvis Fotografia/divulgação
O festival começa com a oficina de literatura “Transforme sua ideia criativa em realidade”, na Faculdade de Três Pontas (Fateps).
Na quinta-feira (13/8), haverá circuito de gastronomia, cultura, moda e negócios, além de sarau. Sexta-feira será dia de cortejo de fanfarra, bate-papo sobre a vida e obra de Milton Nascimento, circuito musical de bares e “Serenata dos Tiso”, com participação de Wagner Tiso, no Cemitério Municipal.
Os shows estão marcados para sábado (15/8), no aeroporto da cidade. Estão confirmados Beto Guedes, Nando Reis, Chico Chico, Banda Saideira e Ânima Minas. “Todos vão fazer homenagem ao Milton”, diz a idealizadora do evento.
“Isso faz parte do fio condutor e do conceito do projeto. Mesmo não sendo artistas do Clube da Esquina (com exceção do Beto), eles vão fazer essa homenagem. Foi combinado com cada um”, explica Dolores.
O palco vai trazer novamente o cenário de 2009, a reprodução da Serra de Três Pontas, concebida de forma que a estrutura pareça localizada dentro da própria serra. É também referência à capa de “Geraes”, disco de Bituca que completa 50 anos em 2026. O desenho feito pelo próprio músico acabou se popularizando em estampas de camisetas e adesivos de carros.
Este ano também marca as duas décadas do lançamento do embrião do festival, a biografia “Travessia: A vida de Milton Nascimento”, da própria Maria Dolores. “Comecei o projeto do livro em 2002 e terminei em 2006. Tive proximidade muito grande com o Milton, foi tão bom que eu e meu marido – que não era produtor cultural, mas advogado – quisemos montar o festival”, ela lembra.
Depois da estreia do Música do Mundo em 2009, o festival se repetiu anualmente até 2016, mas sempre com problemas de infraestrutura e falta de verbas. Boa vontade não faltava. Milton participou de todas as edições, mas, a certa altura, o evento se tornou insustentável.
Retomada em 2023
A retomada ocorreu em 2023, quando a Lei Rouanet aumentou o percentual de isenção fiscal para patrocinadores. Desde então, Maria Dolores trabalhou para que Bituca estivesse novamente no festival. Em 2025, contudo, veio a público a informação de que ele tem demência por corpos de Lewy, que afeta a memória, o movimento e o comportamento.
“Além de grande parceiro do festival, ele foi um grande incentivador”, conta Dolores. “Quando começamos a pensar na retomada, a ideia foi a mesma de sempre: contratar um show dele e ver se ele topava. Imagino que toparia, porque abraçou todas as edições do projeto. Mas com a notícia do ano passado, a gente viu que não tinha a menor possibilidade.”


