Destaque

Tributo Soberano a Bill Evans em Itaipava =>Kiko Continentino 3 + 1

Eu, Kiko, estarei com um trio de craques e uma participação pra lá de especial numa casa espetacular, reduto da boa música na região serrana do RJ, nessa próxima sexta-feira, 14 de agosto, celebrando a obra de um dos maiores gênios do piano – que deu umas dicas preciosas pro meu pai em BH, 1976 (há 50 anos atrás!).

É o TRIBUTO a BILL EVANS no SOBERANO de ITAIPAVA com oKiko CONTINENTINO TRIO, comDave ZINNO (baixo), Xande FIGUEIREDO (bateria) e participação especial deMárcio LOTT, um dos nossos maiores crooners.

 

ENCONTRO com BIL EVANS

Segue um semi-breve relato sobre a influência que o encontro do meu pai (Mauro Continentino) com o pianista Bill Evans, em 1976, exerceu sobre os caminhos que eu e meus dois irmãos seguimos como músicos profissionais.

 

 

Histórias de Mauro, o Continentino

Nascido em 1944 no Rio de Janeiro, meu pai, Mauro Continentino, foi criado em Belo Horizonte (Minas Gerais). Embora tenha tocado um pouco de piano clássico durante a infância e a juventude, ele sempre foi um amante do espírito libertário do jazz — um verdadeiro aficionado pelo gênero. Experimentou diversas profissões e iniciou vários cursos universitários na década de 1960, mas nunca concluiu nenhum deles.

Trabalhou como jornalista e na área de publicidade, foi dono de oficina mecânica e de uma frota de táxis, cursou arquitetura, filosofia e sociologia na universidade sem obter diploma; também traduziu livros em inglês, francês e até alemão. Trabalhou no Jornal do Brasil. Suas viagens e aventuras o levaram a Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro durante o início da década de 1970 — os “Anos de Chumbo” da ditadura militar.

Em 1963, meu pai foi convocado para dois anos de serviço militar obrigatório pelo programa CPOR (servindo dos 19 aos 20 anos); deixou o exército como oficial, mas — paradoxalmente — foi um militante ativo do Partido Comunista durante aquele período, uma situação tensa e perigosa; ele esteve perto de se tornar um guerrilheiro contra o regime vigente.

Após deixar o exército, viveu como um hippie sul-americano experimental, adotando um estilo de vida alternativo que era revolucionário mesmo para os padrões da contracultura da época. Então, em 1976, ao retornar a Belo Horizonte — minha cidade natal —, ele finalmente conseguiu um emprego bem remunerado na área de publicidade e marketing. No entanto, o jazz permanecia em sua mente e em seu coração. Ele comprou um livro, método de harmonia e improvisação de jazz de John Mehegan, que trazia na sua introdução, um prefácio assinado por Bill Evans, um dos maiores gênios do jazz contemporâneo.

O sonho de se tornar pianista de jazz continuava vivo, embora, aos trinta e dois anos, ele se sentisse velho para embarcar em uma nova carreira. Até que, um dia, quando Bill Evans veio a Belo Horizonte para um concerto no Palácio das Artes, meu pai assistiu o soundcheck (passagem de som) do Trio à tarde e se aproximou dele, contando em inglês um pouco de sua história; Bill foi incrivelmente gentil e atencioso com aquele desconhecido. Durante a conversa, Bill mencionou que estava com fome e então meu pai o levou a uma lanchonete próxima, apresentando-lhe às vitaminas de frutas mineiras (sempre frescas) e ao pão de queijo — iguaria típica de BH e Minas Gerais. Bill Evans achou aquilo delicioso e simpatizou com aquela figura meio séria/louca de meu pai, o incentivando a perseguir o seu sonho.

Ele até escreveu uma bela dedicatória no volume 01 do método de Mehegan (ao lado do seu próprio prefácio), que dizia algo como: “Meus melhores votos, Mauro. Cada degrau é como o próximo, e o maravilhoso da música é que a escada nunca termina.” Aquele momento acendeu uma chama em meu pai: ele pegou o dinheiro que havia economizado, comprou um caminhão velho, carregou-o com um piano antigo e sua família e — no ano seguinte — deixou para trás toda a estabilidade que havia construído, para embarcar em uma nova e decisiva aventura. Se mudou para a remota roça de São Pedro do Lumiar, perto de Nova Friburgo (RJ), onde viveu por um ano com sua companheira, Marisa Gandelman e os filhos: eu (então com sete anos), Jorge Continentino (três) e Luiza (um bebê de um ano).

Ao longo de 1977, ele se dedicou — como músico autodidata — aos seus estudos e propósitos musicais, levando o jazz a áreas rurais com a família acompanhando-o nesse sonho. Retorna ao Rio em 1978, quando nasce Alberto Continentino, meu irmão caçula dos homens. Por que somos 03 homens e 06 mulheres, num total de 09 filhos do Mauro com seis diferentes mulheres (…).

Em 1979, iniciou então sua carreira como pianista de jazz profissional na cidade de Vitória (ES), percorrendo uma trajetória repleta de aventuras e desventuras mil. E assim ele vive, desde então. Atualmente, reside no Retiro dos Artistas — local de acolhimento para artistas aposentados — na Zona Oeste do Rio de Janeiro; o Retiro se tornou um SESC e as atividades são intensas.

Mesmo enfrentando um quadro de demência, meu pai toca diariamente seu “blues in G” no piano do refeitório da instituição. Eu e meus irmãos Jorge e Alberto Continentino — cada um à sua maneira — representamos a continuidade do sonho libertário e jazzístico de nosso pai. O encontro dele com Bill Evans, há 50 anos, foi sem dúvida a centelha que deu início a essa saga — uma história que acabou por formar três músicos, de Minas Gerais para os palcos do mundo.
(Texto de Kiko Continentino)

 

 

 

SERVIÇO

Soberano: Estrada União e Indústria,11000 – Estação Locanda

Kiko Continentino Trio convida Márcio Lott – Tribute to Bill Evans. Soberano Itaipava, 

Ingresso: https://bileto.sympla.com.br/event/124594/d/403050?source=ev