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Grupo Um lança ‘Nineteen Seventy Seven’

O grupo brasileiro de vanguarda do jazz avant-garde, Grupo Um, celebra seu 50º aniversário compartilhando um segundo álbum inédito dos anos 70, até então perdido de seus arquivos. Nineteen Seventy Seven (título que faz referência ao ano de sua gravação) é mais um tesouro de fusão instrumental vibrante da banda, que surgiu do famoso coletivo paulista de Hermeto Pascoal em meados da década de 70.

Assim como seu álbum de estreia, Starting Point, Nineteen Seventy Seven do Grupo Um foi gravado durante o auge da repressão militar no Brasil. “Não havia portas abertas para quem sonhava em ser protagonista na música instrumental criativa”, lembra o baterista Zé Eduardo Nazario, “até mesmo compositores e cantores populares tinham que submeter suas músicas à censura e muitos discos eram proibidos e confiscados das lojas.

Assim como Viajando Com O Som (1977), de Hermeto Pascoal, e o álbum anterior do Grupo Um, Ponto de Partida (1975), ambos inéditos até o século XXI, Zé Eduardo afirma que o álbum de 1977 não tinha a menor chance de ser lançado naquela época.

 

 

Gravado no Vice-Versa Studios de Rogério Duprat, em São Paulo, o grupo estava sob restrições de tempo e espaço. “Escolhemos o pequeno Estúdio B”, lembra Lelo Nazario, “que tinha um console Tascam (TE AC) 12×8 e uma máquina AMPEX AG 440 de 4 canais. Por isso, tivemos que gravar sem overdubs, tudo direto na fita.”

Expandindo-se de um trio para um quinteto, os membros originais do Grupo Um, Lelo Nazario (teclados), Zé Eduardo Nazario (bateria) e Zeca Assumpção (baixo), foram acompanhados pelo saxofonista Roberto Sion e pelo percussionista Carlinhos Gonçalves. Carlinhos, Zé e Zeca já haviam tocado juntos no grupo Mandala, enquanto os irmãos Lelo e Zé acabavam de concluir uma temporada acompanhando Hermeto Pascoal durante seus anos em São Paulo.

Lelo estava profundamente imerso em experimentações com sintetizadores modulares durante esse período, trabalhando extensivamente com o ARP2600 e o EMS Synthi AKS. Essas explorações eletroacústicas formaram a base sonora de “Mobile/Stabile“, uma de suas primeiras composições a fundir síntese modular com música brasileira, uma fusão que reverberaria por toda a cena do jazz brasileiro.

 

 

A peça estreou no primeiro Festival Internacional de Jazz de São Paulo em 1978, apresentada pelo Grupo Um com o trompetista convidado Márcio Montarroyos. Em um momento chocante, o festival… Os organizadores interromperam o show no meio da apresentação, provocando forte reação negativa tanto do público quanto de jornalistas, que denunciaram o incidente como censura artística durante o período de repressão política e cultural no Brasil. A versão presente em Nineteen Seventy Seven é a primeira gravação da composição.

Nineteen Seventy Seven combina ritmo afro-brasileiro, sintetizadores modulares e uma profusão de apitos, percussão e pedais de efeitos. A faixa de abertura do álbum, “Absurdo Mudo” – assim intitulada pela dificuldade absurda que impõe aos músicos que a executam – começa em uma nuvem de dissonância misteriosa, antes que a névoa se dissipe para uma gloriosa interação entre teclado e saxofone sobre uma batida de samba acelerada.

Cortejo dos Reis Negros (Versão 2)”, baseada no ritmo do maracatu, inverte a estrutura tradicional da canção de jazz, começando com improvisações, seguidas pelo tema e uma coda final. “O estúdio também tinha duas unidades de reverberação eletrônica Parasound”, observa Lelo, “e o timbre é muito…” “Audível no saxofone soprano e na percussão.”

A música ousada do Grupo Um representa um manifesto de resistência durante os anos da ditadura, mas continua tão relevante hoje quanto naquela época. Como Lelo afirma: “Para mim, a questão estética sempre foi combinar linguagens de vanguarda contemporâneas com a música brasileira, independentemente de categorias e interesses comerciais. O resultado dessa fusão leva a música a um novo patamar.”

Nineteen Seventy Seven foi lançado pela primeira vez em vinil, CD e digitalmente em 23 de janeiro de 2026 pela Far Out Recordings.